Archive for the ‘Vidim’ Category

O bode da despedida

25/03/2011

O início do semestre letivo (já com olheiras e dores no corpo todo) explica o porquê de eu deixar este espaço às moscas até, com sorte, julho próximo.

Para oferecer uma boa despedida, publico a tradução inédita de uma canção tcheca, “O bode” (Kozel), de Jaromir Nohavica. A tradução é de Petra Mocová, professora de tcheco da minha irmã, com revisão minha e dessa minha irmã semitcheca.

Petra e seu namorado traduziram um conjunto de canções de Nohavica — que, segundo ela, é uma espécie de Chico Buarque da Europa Central — e eu me encantei particularmente com essa. Agora, depois de a tradução receber o aval do compositor, posso dividi-la. E… ¡hasta la vista!

Era uma vez um homem
que tinha um bode.
Os dois se davam
muito bem,
o homem gostava muito dele –
realmente muito –
e afagava-lhe a barbicha
para lhe dar boa noite.

Um dia
o bode, por engano,
comeu-lhe a camiseta vermelha,
e o homem, quando reparou,
gritou “ora, ora”,
amarrou o bode
e o colocou
nos trilhos do trem.

O trem apitou,
o bode se asustou,
“isto é a minha morte”,
berrou “mé-mé”,
e tanto berrava
que depois tossiu
a camiseta vermelha
e, com isso, o trem parou.

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Sobre topônimos e autocomiseração

19/01/2011

Eu gosto de topônimos. Na Cordilheira Central da Costa Rica, a nordeste do Vulcão Poás (aquele que tem um lindo lago azul claro, de águas escaldantes e sulfurosas, recobrindo uma de suas crateras), o que encontro no mapa? A Depresión del Desengaño. A minha imaginação se derrama.

Brasília-gentil

02/01/2011

Há alguns dias Brasília chove como São Paulo (dias inteiros úmidos, de luz branco-cinza, sem sol). A Misi entendeu bem o espírito do tempo.

Misi | Brasília, 02 jan. 2011 | Por Daniela Alarcon

Valeu, Brasília, desta feita você me entendeu e cooperou.

Monotemático

24/10/2010

Meu mundo está monotemático.

Ontem, dei uma pausa na pesquisa sobre os Tupinambá para descobrir que Mondovino — filme que eu devia ter assistido há anos — fala muito menos de vinho que dos mecanismos usados pela modernização capitalista para varrer a diversidade de modos de vida e produção.

Hoje, quando interrompi a leitura prum cafezinho, sem querer o fiz justo quando a TV Câmara transmitia um documentário da TAL TV sobre a expropriação das terras indígenas na Argentina.

Claude Chabrol

12/09/2010

Poxa, o Chabrol morreu. Lembro o quão perturbada fiquei, dias, depois de ter visto Uma garota dividida em dois, seu último filme*. Parece a deixa pra fazer uma retrospectiva, inaugurando o sofá-novo-que-abraça.

* Português da terrinha, sempre estragando as surpresas; pras bandas de lá o título ficou Uma rapariga cortada em dois.

Olhos D’Água

20/08/2010

Em junho, aceitei o convite de uma amiga que conhecera dois meses antes, em Raposa Serra do Sol. Fui parar em Olhos D’Água, distrito de Alexânia, Goiás.

A uma hora de Brasília; a anos-luz de Brasília. Olhos D’Água é encantada.

Tem céu estrelado, pamonha, café com leite, fogão à lenha, fogueira, banho de rio, barulho da noite, frio do entardecer, bichinhos, silêncio…

As fotos não alcançam, mas dão uma pista.

Miseta…

18/08/2010

A Misi tem o mesmo modus operandi. A única diferença é que, quando ela começa a arrancar pedaços, não se distrai com eles — morde sem parar.

Brasília, São Paulo

17/08/2010

Aeroporto ao pôr-do-sol. Brasília, 13 ago. 2010.

Rebouças. São Paulo, 15 ago. 2010.

São Paulo, na mesa

17/08/2010

Sexta: pizza. Isso é óbvio. Quando chego a São Paulo depois de uma temporada em Brasília, me agarro a uma boa pizza como se fosse um bote salva-vidas. Mas esta foi em Guarulhos, em homenagem aos velhos tempos, com direito a gravata borboleta, garçom piadista e vitrine de vidro para assistirmos à massa sendo sovada.

Sábado: restaurante guaicuru (desculpem, mas eu queria muito usar o gentílico mais legal de Mato Grosso do Sul — aliás, tem toda uma disputa em torno do termo, vejam só). De entrada, linguiça bovina; então, sobá, prato trazido pelos imigrantes de Okinawa que acabou por cair nas graças de Campo Grande. Meu paladar não considerou propriamente um hit, mas achou simpático.

Domingo: domingo de extravagância, começa com almoço num restaurante coreano. É um tipo de churrasco de mesa, com a carne (ótimo, ótimo tempero) grelhada na hora. Como acompanhamento, misoshiru, gohan, acelga apimentada (sublime), pepino japonês, broto, batatas pequeninas. Fomos de “tradicional” e “churrasco na manteiga”. Preciso voltar para provar as costelas. Felizes e quentinhos, rumamos para o jantar no Guilherme. As expectativas da noite giravam em torno da mussaká preparada pelo Horta e do tiramisu da Nati. O pobre labutou por horas — e a mussaká ficou uma delícia! (Confesso apenas que separei as berinjelas, mas não fui a única deselegante…) E o tiramisu provou que a temporada da Nati na Itália não está sendo em vão.

Segunda: almoço numa das lanchonetes árabes da Ana Rosa. No kebab, partiram os falafels ao meio, o que enfureceu minha irmã, e o tabule era um pouco heterodoxo, mas interessante. O bonito foi a limonada com água de rosas. Eu voltaria lá de novo e de novo só pela limonada.

* O momento mais infeliz do roteiro gastronômico foi descobrir que aquela padaria gostosa de Higienópolis ostenta com orgulho uma placa comemorativa a registrar que sua inauguração se deu em 1988, com a presença do ilustríssimo Fernando Henrique, senhora e prole. Droga.

Mea culpa

13/08/2010

De fim de junho a agosto, a “vida laboral” foi intensa.

Para ficarmos apenas com os “acontecimentos principais”:
– Encontro de Pescadoras do Sul da Bahia;
– Conferência sobre a Mulher da América Latina e do Caribe, da Cepal;
– Curso de Formação em Políticas Públicas para Mulheres Rurais;
– Oficina de Diagnóstico de Gênero e Pesca Artesanal;
– Seminário Internacional sobre Políticas para Mulheres Rurais.

Por conta disso, tenho inúmeros bloquinhos e cadernos recheados de anotações, implorando para ser sistematizadas e difundidas. Agora que o mar parece mais calmo (mas não calmo demais para cheirar a tédio!), vou começar a quitar os débitos — incluindo os mais antigos, como a velha dívida em relação à Raposa Serra do Sol…