Archive for the ‘Pescadoras’ Category

Umas fotos do Ceará

05/01/2011

Em maio passado, viajei a Fortim – cidade cearense à margem do rio Jaguaribe, a poucos quilômetros de seu encontro com o mar – para participar, pela primeira vez, de um encontro de pescadoras.

Lá, conheci mulheres oprimidas, de um lado, pelo avanço da aquicultura e outros males sobre a pesca artesanal. “Na nossa região, os fazendeiros colocam cerca elétrica no rio”, anotei. “Na nossa região, a gente não pode amarrar o barco na margem, porque a beira e o fundo do rio são do fazendeiro.” De outro, pelo machismo, que impede o reconhecimento de sua atuação na pesca. “A mulher vai ao INSS, declarar-se pescadora. ‘Deixa eu ver sua mão.’ O funcionário a manda embora, resmungando: ‘Pescadora de unha feita… tá certo’.”

Movida pelos relatos e discussões, escrevi um primeiro texto — valia-me do fato de estar sentada diante do rio para tentar embeber a escrita com algo do mangue, dunas e vento-ventooooooo da noite. Já em Brasília, vieram uma nota curta e um novo texto, sintetizando os principais debates travados em Fortim a respeito da implementação de políticas públicas para a pesca artesanal atentas para as questões de gênero.

Faço este “resgate” pois gostaria de convidá-los a olhar algumas fotografias que tomei durante a viagem e que só agora tive a decência de organizar. Além de participar do encontro, tive tempo de descer as vielas rumo ao rio, observar seu regime ao longo do dia, o vai-e-vem das jangadas, barcos sendo descarregados e o céu sempre mudando de cores. Também atendi ao convite de Dorinha, pescadora da vila de Fortim, que me levou a conhecer sua casa, sua família e seu cotidiano no mangue (aqui, linhas mal traçadas sobre Dorinha).

Do Fortim, deslizei para a vizinha Aracati – cidade mais entrada no Jaguaribe, que leva o mesmo nome do poético vento. Foram poucas horas aí, suficientes contudo para uma olhada no casario (tão bonito) e um pouco de bulicio na zona do mercado de peixe. Um azul de céu hipnotizante, com as nuvens sempre pinceladas pelo vento. Um ônibus depois, a praia de Canoa Quebrada; é fato que preferia ter estado aí uns quarenta anos atrás mas, indo agora, não deixei de enxergar como ela é bela, especialmente quando, finda a tarde, as falésias se doiram intensamente.

Antes de voltar a Brasília, muito caminhei e mergulhei no Pontal de Maceió e Canto da Barra, duas outras localidades de Fortim. Na ida ao Canto da Barra, vacilei e não fotografei os barcos ancorados na maré baixa; quando voltei, vinda do Pontal, encontrei-os já flutuando… Ainda assim, fiz uma ou outra foto. E dediquei um texto a este passeio, um pouco centrado nas afeições do Branco (o motorista de moto-táxi que me levou) para matizar uma discussão sobre especulação imobiliária.

As fotos (aqui), com sorte, talvez deixem ver os encantos de Fortim e Aracati.

Da esq. para a dir., fachada em Aracati, participante do encontro em Fortim, Canoa Quebrada e jangada na barra do rio Jaguaribe | maio 2010 | Por Daniela Alarcon

Para terminar, deixo-os com as palavras de ordem que aprendi junto às pescadoras:

No rio e no mar: pescador(a) na luta!
No açude e na barragem: pescando a liberdade!
Hidronegócio: resistir!
Cerca nas águas: derrubar

Usina ameaça pescadores/as

01/09/2010

“Aqui é um lugar de barriga cheia. Tudo o que você procurar aqui no mangue tem, pra você alimentar sua barriga, seu espirito e sua alma. Se a gente for pra rua a gente vai fazer o que? Morrer de fome? Muitos dos que sairam daqui estão passando fome hoje, vivem de barriga vazia. Eles só viviam bem dentro dos manguezais.” (Maria Nazareth, pescadora)

Nas Ilhas de Sirinhaém, Pernambuco, pescadores e pescadoras estão ameaçados de serem expulsos de suas terras. A comunidade defende a criação de uma Reserva Extrativista, que garanta condições para o exercício de seu modo de vida e para a preservação do ambiente. Até aqui, a Justiça está do lado da Usina Trapiche — ainda que as ilhas sejam propriedade da União.

Mais, aqui.

Brasília-Canavieiras

23/08/2010

Dois meses atrás, estive em Canavieiras, para um encontro de pescadoras; antes de chegar, juntei umas impressões pelo caminho.

Brasília-Salvador-Ilhéus

Eu gosto de, ao pousar, ver as dunas parcialmente cobertas de verde, ao lado da pista. Desgosto de ouvir o aeroporto Dois de Julho ser anunciado como Luis Eduardo Magalhães. Em Ilhéus, parece que vamos pousar no rio, transbordante – lindo mangue. Uma efígie de cacau, patrocinada pelo Rotary, Welcome!, nos recebe no aeroporto Jorge Amado… Dispensável dizer que é um cacau empertigado, mas extemporâneo.

Ilhéus-Una

Casas de ripa, ao lado desses rios tão férteis, de sustento e de histórias; tempo nublado, maré alta, praias azul chumbo desbotado. E então estamos em Una. A Una da placa “Costa do Cacau” e do “Boa viagem” trilíngue, de Comandatuba, a minha Una Tupinambá. O município é arrastado, comprido; chegamos ao centro já quase no escuro…. Deixamos os postes e as gentes para trás, e então nosso farol ilumina duas mulheres, no acostamento, carregando latas na cabeça; as duas vêm em nossa direção, saídas da noite, saídas do fundo escuro do invisível de Una. Daquilo que está além dos (ainda que a eles submetido) empreendimentos turísticos. A lua cheia, encoberta. De novo nosso farol, um rapaz vem de bicicleta.

Una-Canavieiras

A lua parece de outro tempo. Mais tarde, terei lançado o primeiro olhar às construções fantasmáticas diante do cais de Canavieiras (restando três, duas ou uma parede apenas). Amanhã, conhecerei pescadoras como Pedrina ou Maria Lúcia. E, dias depois, penetrarei no mangue, deslizando sob a luz filtrada na promiscuidade de raízes; silenciosa (silenciosos eu, meus companheiros de viagem e o motor do barco, desligado); apanhada pela chuva fina.

E então… Pernambuco!

31/07/2010

Desde que me sei gente, Pernambuco exerce um fascínio descabido sobre mim. O meu estado-fetiche.

Pois bem, aqui estou, há cerca de 30 horas. Pela primeira vez. Agora, mais precisamente no aeroporto, prestes a voltar para Brasília. Se, de um lado, ouvi horas de histórias das pescadoras de Itapissuma e Brasília Teimosa, quase nada vi do Recife e de Camaragibe (nossas atividades ocorreram nesta última).

Mas eu sou de um exagero tremendo.
Me senti abraçando João Cabral quando cruzei um bracinho do Capibaribe, infame de tão pequeno.

Eu quero mais, mais, mais de Pernambuco.

Mas é bonito entrar num estado assim, não? Começar pelas gentes. Depois, já ter nomes e sorrisos pra preencher as paisagens. Eu volto, pescadoras valentes, eu volto. Meninos do sotaque que me derrete, eu volto.

Do siridó ao carimbó

27/07/2010

“Juntaram-se
Os dois na esquina
A tocar a sanfoninha
E a dançar o siridó.”

Esta semana eu passo com a Natércia dos pezinhos miúdos e mais 89 mulheres rurais de diversos pontos do país, debatendo políticas públicas. A música aí de cima é presença constante no repertório de Natércia — mas hoje, devido à miscelânea de estados que fizemos, ela começou o dia dançando carimbó.

Iemanjá

29/06/2010

No cais | Canavieiras, BA, 27 jun. 2010 | Por Daniela Alarcon

Vamo lá: “I don’t want to stay here, I want to go back to Bahia…”.

Pescadora na luta!

12/05/2010

Para quem não cansou das histórias de pescador(a), que começaram aqui, tem mais na cabeça, no bloquinho, nos olhos…

Da extensão para pesca, censo e outras políticas

“Não há um projeto de Estado para extensão na pesca, uma política sistemática como há para a agricultura” – concluíram as mulheres reunidas no Grupo de Trabalho “Políticas públicas de investimento para as atividades pesqueiras das mulheres”, do qual participei no último dia 6, durante o II Encontro Nacional das Pescadoras, em Fortim (Ceará).

Desenhou-se, ali, um cenário de diversas carências ou distorções: ausência de linhas de financiamento específicas para as pescadoras; limitações do Pronaf – gestado para a agricultura – quando aplicado à realidade da pesca (“O Pronaf tem valor muito baixo; só dá pra comprar motor de bicicleta, porque de barco…”); desatenção do INSS às questões das pescadoras; investimento (político e econômico) do Estado em grandes projetos nocivos à pesca artesanal e aos direitos dos pescadores (“Quando deu a mancha branca [doença que atacou as grandes criações de camarão, ocasionada pela densidade populacional excessiva – lucro, lucro, lucro], o Ministério da Pesca negociou com os bancos as dívidas dos empresários”).

Finalmente, o GT enfatizou que a carência de dados sobre as atividades das pescadoras fragiliza ainda mais o planejamento e execução de políticas públicas – daí a reivindicação por um censo com foco na pesca artesanal, que se debruce sobre as atividades das mulheres.

Debater pesca é debater direito à terra

“Na nossa região, os fazendeiros colocam cerca elétrica no rio.”
“Na nossa região, a gente não pode amarrar o barco na margem, porque a beira e o fundo do rio são do fazendeiro.”

Tem que ter unha suja e sem esmalte

A mulher vai ao INSS, declarar-se pescadora. “Deixa eu ver sua mão.” O funcionário a manda embora, resmungando: “Pescadora de unha feita… tá certo”. Se a mulher for branca, alta probabilidade de um “Você não tem cara de pescadora”. Um servidor do INSS da Bahia não viu problema algum em escrever no relatório: “Não aparenta ser pescadora”.

É flagrante a desproporção entre, de um lado, o cotidiano de trabalho das pescadoras – caracterizado por esforços intensos e exposição a riscos variados – e, de outro, a disseminação de entraves ao exercício de seus direitos trabalhistas e beneficiários.

Tem que mentir

Desde 2009, com o estabelecimento do novo Código da Pesca, homens e mulheres que trabalham em todas as etapas da cadeia produtiva (incluindo as/os que tecem e consertam as redes, constroem barcos, processam o pescado…) têm assegurados os mesmos direitos – inclusive previdenciários – que os trabalhadores e trabalhadoras dedicados à captura do pescado.

A legislação da Previdência Social, contudo, ainda não foi adequada à nova lei da pesca. “Muitas mulheres, na prática, são obrigadas a mentir, a dizer que estão na captura”, observaram as participantes do Grupo de Trabalho “Direitos trabalhistas e previdenciários”. E mentir tem um custo político alto, reconhecem, posto que vai na contramão dos esforços pela afirmação dos direitos legítimos das mulheres na pesca.

Ferrada de arraia

Exposição ao sol: perda da visão, doenças de pele (incluindo câncer), dores de cabeça;
Mergulho: enfermidades dos pulmões, problemas nos ouvidos;
Umidade: fungos e bactérias variados;
Esforço: problemas de coluna, nos rins, problemas musculares e ósseos;
Ruído de embarcações: perda da audição;
Salinidade: hipertensão;
Exposição a superfícies cortantes: feridas na pele, tétano.
Bônus: mordida de piranha, ferrada de arraia, ataque de animais peçonhentos etc.

Trata-se de uma lista não exaustiva dos problemas de saúde aos quais estão sujeitos pescadores e pescadoras, elaborada pelo Grupo de Trabalho “Saúde das Mulheres Pescadoras”. Correndo o risco de ser repetitiva: mais uma vez o contraste entre a gravidade da situação versus a insuficiência ou ausência das respostas do Estado.

“A mulher ferrada de arraia passa meses doente, sem poder trabalhar”, comenta uma das pescadoras. “E aí o hospital não atende ou ela vai lá e o INSS, por algum motivo, não lhe dá o auxílio-doença. Como é que ela fica?”

“Há dois anos tenho uma escama de peixe na perna”, diz outra, arregaçando as calças, “e o SUS nunca atende. Quando eu fiz uma cirurgia pra retirar o útero, o INSS deu 15 dias de licença, pra eu então voltar a carregar mesa de caranguejo”. Desalentada: “Acho que quando eu tirar essa escama, ele vai dar um dia, né, pra eu voltar pra lama”.

Atividade insalubre

Após a sistematização do GT sobre saúde, assistimos a uma palestra de Vera Martins, professora da Universidade Federal da Bahia, que há dois anos pesquisa as doenças ocupacionais e a saúde das pescadoras. “Se a pesca fosse declarada uma atividade insalubre”, observa Vera, “os direitos dos trabalhadores e trabalhadoras do setor seriam ampliados”.

Junto ao professor Paulo Pena, também da UFBA, Vera acompanha um grupo de pescadoras da Ilha de Maré, onde registra a incidência de diversas das enfermidades inventariadas pelo GT sobre saúde. Como propósito de fundo, provar os nexos causais entre as atividades pesqueiras e um dado conjunto de enfermidades. E além da propensão a certas doenças, observa Vera, “problemas de saúde com os quais na cidade é mais fácil de lidar, na pesca, se tornam muito graves. Na Bahia, por exemplo, um pescador morreu pois estava no mar, sozinho, quando teve um ataque epilético”.

Óleo diesel e querosene

A média de idade do grupo atendido por Vera é de 42 anos, com 30 anos de mariscagem – mas é comum, diz ela, que comecem a trabalhar ainda antes, muitas por volta dos sete anos de idade. Ou seja, a exposição a uma atividade desgastante e arriscada vem de cedo. Fiquemos com apenas um dado para dimensionar o esforço: em Ilha de Maré, 15 kg de sururu catado equivalem a 1 kg para a venda.

Vera anda de um lado para outro enquanto fala, miudinha em cima de plataformas. Compartilha: no princípio, queria simplesmente atender às mulheres, estava cansada de política. Em dado momento, porém, percebeu que não havia escapatória: sua contribuição teria necessariamente de ser no sentido de subsidiar as políticas públicas e a transformação. Porque, caso contrário, perderia a voz de tanto recomendar protetor solar e repelente pra quem não pode pagar.

Mas, mesmo ciente das limitações, não consegue deixar de falar: pergunta ao plenário se alguém já usou óleo diesel ou querosene como repelente. Quando duas balançam a cabeça afirmativamente, implora: “Não façam isso, pelo amor de deus. É altamente cancerígeno. Não façam”.

No açude e na barragem: pescando a liberdade!

Para fechar mais este apanhado de fragmentos do Fortim (que eu entendo como o princípio de uma descoberta), vamos com uma das palavras de ordem. Podem apontar o dedo (“sua manteiga derretida”), mas eu fico mesmo arrepiada quando ouço – e sou convidada a bradar junto.

No rio e no mar: pescador(a) na luta!
No açude e na barragem: pescando a liberdade!
Hidronegócio: resistir!
Cerca nas águas: derrubar

Recados

11/05/2010

Abro a mala para passar a limpo as folhinhas de caderno, com contatos e recados, que trouxe de Fortim (do II Encontro Nacional das Pescadoras).

No verso do contato da Rosedite (da Associação dos Ostricultores de Barreiras de Coruripe, AL): “Temos CNPJ, regimento interno. 13 associados – 4 homens e 9 mulheres. Nós somos muito carentes de tudo. Pesca de água doce e salgada, rio e mar”.

Sobre o endereço da Associação de Pescadores e Marisqueiras Renascer, de Cabedelo, PB, o pedido na letra desenhada e pequena de Ana Darc: “Não esqueça de nós”.

O jardim de Dorinha

10/05/2010

Dorinha e eu nos conhecemos há cinco minutos quando ela me convida a visitar sua comunidade, uma das vilas de Fortim, de nome Jardim. São pouco mais de 4 km em direção ao interior.

Ela me põe soleira adentro; traduz o rio, paciente com meu andar desajeitado na lama. Deixa-me brincar com os gatos do quintal, o tempo necessário para que ambos se acostumem e venham roçar minhas pernas. Oferece-me uma pinha doce e macia, aponta a canoa da sua família (“Yago”) paradita na água, os ranchos ao longo da praia onde os ventos embalam pescadores, as aves. A um seu amigo, pede que nos dê alguns siris, desenredados naquele instante, para que eu os prove cozidos no sal.

Diante de casa: Dorinha; sua mãe, dona Das Dores; e sua sobrinha, Solange. Jardim, Fortim (CE), 7 maio 2010. Por Daniela Alarcon

Atravessamos quintais. Aqui, portas sempre abertas. Ela chama o Jardim de Paraíso. Em uma casa, entramos para tomar água (sol… a meio caminho entre o rio e a casa de Dorinha); em outra, para que eu assista aos siris sendo filetados e aos mariscos, ensacados e pesados.

Dorinha é marisqueira, filha de marisqueira. Mãe solteira, filha de mãe solteira. Além dela, vivem na casa verde sua mãe e seu filho. A eles vieram se somar os dois sobrinhos de Dorinha, filhos de sua única irmã – não faz muito, assassinada com 16 facadas pelo marido, que em seguida se suicidou. Não sei se acertadamente, reconheço a irmã ausente em um retrato da sala: uma moça de rosto redondo, vestida de noiva. Para abrigar a todos, na sala e no quarto, além das camas, armaram-se redes – Dorinha acorda todas as manhãs com um dos gatos patinhando em sua rede, em busca de atenção.

Então se vão as horas, soltas, e temos de voltar. Espero enquanto Dorinha se banha – é claro que não têm água encanada, isso é apenas para as casas de veraneio dos de fora que descobriram Jardim. As roupas são levadas para lavar no mangue, na água das cacimbas (que ela faz questão de me mostrar, quando por lá passamos), e de lá se traz o necessário para o banho e as atividades da cozinha. Na cozinha dos fundos – onde está o fogão a lenha –, a mãe de Dorinha, dona Das Dores, cuidadosamente enfiou flores artificiais no pau a pique. Jardim.

Pescadora, com “a” no final

05/05/2010

Em Fortaleza, o taxista puxa assunto perguntando o que vou fazer em Fortim, município encravado na foz do rio Jaguaribe. “Vou a trabalho, participar de um encontro.” Evito deliberadamente os detalhes, mas ele insiste. Quando completo a frase (“… de um encontro de pescadoras”), o sujeito engasga e ri. “Pescadoras?!”

Para não ser injusta com a categoria dos taxistas, devo mencionar o amigo que – apesar de fazê-lo de forma nem um pouco jocosa – também demonstrou assombro quando eu disse que participaria do II Encontro Nacional das Pescadoras. Pois que ele não sabia que elas existiam.

Bem, posso confirmar que hoje à tarde avistei cerca de 60 desses espécimes tidos por raros ou inexistentes. Vieram de diversos estados, atendendo ao chamamento da Articulação Nacional das Pescadoras, para debater uma pauta ampla, que tem entre seus pontos – adivinhem – a invisibilidade das mulheres na pesca.

As mulheres da Ilha de Maré

E o que fazem as pescadoras? Maria José Pacheco, do Conselho Pastoral dos Pescadores, apresentou-nos hoje um diagnóstico sobre a divisão sexual do trabalho na pesca na Ilha de Maré, Bahia, realizado com a participação de pescadoras e pescadores. Ressalvando-se que os resultados dizem respeito àquele contexto específico, creio que vale citá-los, porque, pelo que tenho ouvido por aí e pela tônica das intervenções de hoje, eles indicam certas recorrências. (E a carência de dados sobre as pescadoras faz crescer ainda mais nosso interesse pelo diagnóstico.)

Em Ilha de Maré, a captura de peixes e de camarões – espécies mais valorizadas economicamente – era vista, quando da pesquisa, como ocupação predominantemente masculina. Quando se tratava de mariscos – produto de preços inferiores e cuja coleta pode ser conciliada mais facilmente com as tarefas domésticas –, a situação se invertia. Distribuição mais equitativa entre os sexos era encontrada apenas na coleta de siris.

As tarefas das mulheres, contudo, não se esgotavam na pesca. Eram elas, em sua maioria, que se encarregavam de tratar o pescado, fazer a roça, cozinhar, buscar água e lenha, limpar a casa, cuidar das crianças. A lida com os animais de criação e a venda do pescado eram atividades com distribuição mais equilibrada entre os sexos, observando-se ligeira predominância dos homens. Finalmente, eram elas, em sua maioria, as responsáveis por administrar o dinheiro da família. Este último dado, segundo a hipótese da pesquisa, não seria motivo para otimismo. Não se tratava de um sinal de maior autonomia das mulheres, mas sim de que a gestão do dinheiro caberia a elas por estar próxima à gestão das necessidades da casa. Ou seja, mais um elemento de sobrecarga.

Morte no apicum

Durante a pesquisa do CPP, uma reivindicação foi recorrente: “precisamos de creches”, diziam as mulheres. Com quem deixar as crianças quando saíam para catar marisco? Na Ilha de Maré, fazia pouco que uma criança, filha de pescadeira, morrera no apicum*, enquanto sua mãe pescava – não tinha onde deixá-la.

* Terrenos formados por sedimentos arenosos margeando as áreas dos manguezais.

Dono de colônia

Apesar de as mulheres darem contribuição fundamental à cadeia da pesca, seu índice de filiação às colônias de pescadores e outras entidades de representação ainda é baixo, e os cargos de direção, monopolizados pelos homens.

Precursoras, houve – devidamente lembradas no Encontro. Nomes como Margarida e Joana Mousinho. Margarida Mousinho foi a primeira mulher a presidir uma colônia (a Z-10, de Itapissuma, Pernambuco), ainda na década de 80, após a renúncia do presidente anterior. Além disso, atuou no que se tornou conhecido como o “Movimento Constituinte da Pesca”. Joana, por sua vez, foi a primeira a ocupar o cargo como presidenta eleita – na mesma colônia, a partir de 1989. Hoje, felizmente, a lista seria mais ampla. A persistência das dificuldades, contudo, vem sintética no relato que ouvi de uma pescadora, ao rememorar quando, junto a outras mulheres, compôs chapa para concorrer a sua colônia. “Fomos enfrentar um leão que tem lá na minha terra: dono de colônia”. Bem, bateram o leão.

Marisqueira? Pescadora?

Que as pescadoras muitas vezes não sejam reconhecidas pelos pescadores e suas organizações é só um lado da moeda. Até bem pouco tempo atrás, mulher obtinha do governo, se muito, carteira carimbada de “marisqueira”. Vira e mexe alguém lembra a gafe do ministro da Pesca, que se declarou surpreso ao encontrar pescadoras durante o processo de uma das conferências da pesca.

Data de 2009 (!) o reconhecimento de que os homens e mulheres que realizam outras atividades da cadeia da pesca que não a de captura do pescado são também pescadoras e pescadores, igualmente atingidos pelas oscilações de preços, pelos efeitos do defeso e por aí vai… e, por isso mesmo, sujeitos dos mesmos direitos. Equivale a dizer que muitas mulheres – que estão aí, costurando redes, limpando o peixe – passaram a existir para o governo, como trabalhadoras, ano passado.

Ornamentos

Como anda “de bom tom” se sair como politicamente correto no que diz respeito a gênero, têm convidado mulheres para compor mesas de debates por aí. Uma companheira da Resex Marinha de Ibiraquera (municípios de Imbituba e Garopaba, Santa Catarina) nos contou que descobriu, ao chegar a uma atividade dessas, que fora convidada a se sentar à mesa, mas não a falar. Outra, do Piauí, soube que teria tempo de fala menor que o dos demais participantes, homens. Foi só anunciarem que iam se retirar da atividade, que tiveram suas falas garantidas, em condição de igualdade.

O que eu não sabia do Subaé

Ano passado, fevereiro, quase passei uns dias em Santo Amaro da Purificação, já que estava ali do lado. No fim, não deu certo, mas voltei a São Paulo sabendo um par de coisas sobre a cidade, fruto da preparação para a quase-ida. Até hoje, porém, não tinha ideia da horrível história de contaminação da cidade por chumbo. Lixo deixado para trás pela subsidiária de uma multinacional francesa. Moradores com chumbo entranhado nos cabelos, chumbo nos peixes, no rio Subaé, no calçamento… A gente não sabe de nada mesmo. Ainda bem que eu estou aqui em Fortim – mais uma vez junto a mulheres muito fortes e combativas – para aprender alguma coisa.