Archive for the ‘Na_língua’ Category

São Paulo, na mesa

17/08/2010

Sexta: pizza. Isso é óbvio. Quando chego a São Paulo depois de uma temporada em Brasília, me agarro a uma boa pizza como se fosse um bote salva-vidas. Mas esta foi em Guarulhos, em homenagem aos velhos tempos, com direito a gravata borboleta, garçom piadista e vitrine de vidro para assistirmos à massa sendo sovada.

Sábado: restaurante guaicuru (desculpem, mas eu queria muito usar o gentílico mais legal de Mato Grosso do Sul — aliás, tem toda uma disputa em torno do termo, vejam só). De entrada, linguiça bovina; então, sobá, prato trazido pelos imigrantes de Okinawa que acabou por cair nas graças de Campo Grande. Meu paladar não considerou propriamente um hit, mas achou simpático.

Domingo: domingo de extravagância, começa com almoço num restaurante coreano. É um tipo de churrasco de mesa, com a carne (ótimo, ótimo tempero) grelhada na hora. Como acompanhamento, misoshiru, gohan, acelga apimentada (sublime), pepino japonês, broto, batatas pequeninas. Fomos de “tradicional” e “churrasco na manteiga”. Preciso voltar para provar as costelas. Felizes e quentinhos, rumamos para o jantar no Guilherme. As expectativas da noite giravam em torno da mussaká preparada pelo Horta e do tiramisu da Nati. O pobre labutou por horas — e a mussaká ficou uma delícia! (Confesso apenas que separei as berinjelas, mas não fui a única deselegante…) E o tiramisu provou que a temporada da Nati na Itália não está sendo em vão.

Segunda: almoço numa das lanchonetes árabes da Ana Rosa. No kebab, partiram os falafels ao meio, o que enfureceu minha irmã, e o tabule era um pouco heterodoxo, mas interessante. O bonito foi a limonada com água de rosas. Eu voltaria lá de novo e de novo só pela limonada.

* O momento mais infeliz do roteiro gastronômico foi descobrir que aquela padaria gostosa de Higienópolis ostenta com orgulho uma placa comemorativa a registrar que sua inauguração se deu em 1988, com a presença do ilustríssimo Fernando Henrique, senhora e prole. Droga.

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Dona Silvia

30/03/2010

Coisa mais fácil é encontrar imagens de pombas em Goiás Velho. Algo como: a cada três casas, uma traz o espírito santo sobre a soleira. Os adesivos da festa do divino estampam, sobre o nome do festeiro da vez, mais pombas. As reais, também se vê sem esforço – sobre a casa de Cora Coralina, há várias.

Alfenins | Goiás, 28 fev. 2010 | Por Daniela Alarcon

Agora, para achar aquelas pombas de nome árabe, brancura doce e peninhas modeladas, só numa velha casa, num canto da praça do chafariz de cauda. Não fosse pelo labor caprichoso que se opera naquela cozinha, estaria perdida, em Goiás, a arte dos alfenins.

Tão logo aparecemos à porta, nos convidam a entrar. Esperamos, entre os bibelôs. Dona Silvia vem da cozinha com a bandeja-pombal às mãos; emerge de um tempo em que várias doceiras detinham a mesma arte. As pontas dos dedos esmaltados guardam queimaduras de décadas – pois a massa deve ganhar forma ainda quente – e uma infinita paciência.

Dona Silvia e alfenins | Goiás, 28 fev. 2010 | Por Daniela Alarcon

Brasília, jogo-me a teus pés

09/02/2010

Aqui eu compro seriguelas na banquinha da rua. Seriguelas!
(A 3 reais, o litro, ao lado do Ministério da Pesca; na frutaria da minha quadra, uma bandeja de 300-400 ml sai por 8 (!) contos.)

Quando morar em Brasília é legal

27/01/2010

Uma viagem de 10 minutos de ônibus, saindo do trabalho, e mais 10 a 15 de caminhada me deixaram diante de uma cuia cheia de tacacá — prato paraense preparado com tucupi (caldo extraído da raiz da mandioca brava), muitas folhas de jambu (que provocam uma leve e prazerosa dormência na língua) e camarão seco — e de um prato de pirarucu.

(Em Belém, duas mulheres — uma de Rondônia e outra do Amazonas — tentaram com a maior naturalidade me passar a receita do tucupi. Quando me familiarizava com termos como tipiti, já tinha esquecido os tempos de preparo; quando decorava os tempos, já não sabia as quantidades. Um fiasco.)

Nós dos Jaymes pretos cozinham melhor ainda

18/01/2010

“De família tradicional, qualquer Jayme é cozinheiro bom. E nós dos Jaymes pretos cozinham melhor ainda que esses dos brancos.”

O restaurante Pensão do Padre Rosa, em Pirenópolis, traz na fachada um lapidar “Fartura”, entalhado em madeira. À entrada, sobre a parede rosa claro, jornais emoldurados com manchetes chamativas enaltecendo “a mesa mais farta do Centro-Oeste”, “a pensão mais famosa do Brasil”. Os textos cobrem décadas, em narrativas truncadas. Sabe-se que o restaurante — outrora também pensão — foi fundado em 1952 por João Jayme Joanito, conhecido como Juanito Jayme. Um de seus 23 filhos, Ranulfo (que abre este texto explicando a distinção entre os Jaymes pretos e brancos), hoje toca o restaurante e conta aqui (*), em detalhes deliciosamente embaralhados, a história de Juanito.

Nascido em 1899, filho de coronel com escrava, Juanito viveu os enredos do coronelismo goiano, envolveu-se em casos de morte, vendeta e milagre. É, aliás, a um milagreiro meio torto, padre jogador de baralho, que o restaurante deve o nome. Ranulfo lembra que o pai serviu Juscelino; faltou pouco para, por capricho, deixar de atender a Rachel de Queiroz (que dedicou um artigo ao restaurante, n’O Cruzeiro, em 1953); a presença de Collor, vestido de shorts e “você sabe com quem está falando?”, definitivamente vetou.

Arroz com pequi, tutu, feijão tropeiro, couve, paçoca de pilão, javali assado, carne ao molho de café, torresmo. Esse foi meu cardápio, nada frugal, no último sábado. E tive que deixar de lado muitos outros pratos, cheirosos de lenha… Custou-me muita firmeza de propósitos limitar-me aos doces de mamão verde, jabuticaba (suas cascas negras convertidas em finas peles translúcidas e esverdeadas), caju e leite (na quantidade de açúcar exata). E, no copinho de café, um suco de limão cremoso e doce. “O forte nosso era a variedade de doces que não existe no mundo. Em lugar nenhum no mundo”, diz Ranulfo.

(*) Recomendo muito, muito que leiam; é coisa bonita demais.

Eugênia

21/12/2009

Logo que comi minha primeira cagaita, rastreei a memória gustativa e topei de pronto com a jabuticaba. Não é que elas se pareçam feito frutas gêmeas, mas há um sabor de fundo — algo a ver com a persistência da fruta na boca — que as aparenta. Jabuticaba é a eterna preferida. Do cerrado, vêm duas outras de que gosto tanto, ambas provadas pela primeira vez na Bahia: buriti e mangaba. À cagaita, me entreguei de modo atirado.

Os frutos de amarelo aveludado se esparramavam diante do quarto de hotel (isso foi em Pirenópolis) e havia que catá-los do chão. A luta era com o sol: tão ligeira quanto a apresentação da fruta, viera a advertência: cagaitas quentes, ou em excesso, me levariam direto para o vaso.

Agora, passados meses, me debruço um instante sobre o vocábulo “cagaita” — a franqueza, que me escapou à época. Quando dou com seu nome científico, só cresce minha simpatia: Eugenia dysenterica DC.

Se a Eugênia (vou lhe emprestar um circunflexo para não virar eugenia) te envolver até a gula, em suas próprias folhas, diz-se, reside o antídoto. Senão, deixe-se levar: afirma o biólogo, no mesmo artigo (o que ando lendo, céus), que comê-la em excesso também pode causar embriaguez…

Refeição-genocídio

13/12/2009

Trouxe de Belém — muito mais pela curiosidade que por outra coisa — um saquinho de aviú, minúsculo camarão de água doce. Deram origem a um risoto e a bolinhos. Mesmo exercitando a capacidade de abstração (o velho não lembrar da vaca ao comer o bife), confesso que não foram refeições totalmente ausentes de culpa.

PS. Que não me leiam minha irmã e cunhada, vegetarianas.

Fruteiras

17/11/2009

Ansiando pelas manguinhas, cuja máquina de sabor e sumo opera dia e noite, pondo-as mais carnudas, ao avanço de passos da minha casa. São como pendentes de brincos. Se gostasse, teria também as jacas; mas está muito bem, meus olhos gostam. Mangas e jacas, interregnos urbanos.

Lambuzando-me de caju

30/10/2009

Como Dona Joana alcança os cajus mais altos. Aracoiaba, 30 out. 2009.

Mazé. Maria José.

27/10/2009

— Vai levar um biscoito?
— Hoje não, obrigada.

Insiste um pouco. Depois, circula pelas mesas, não vende nenhum, rodeia a nossa outra vez, quando se dá conta de que eu vinha acompanhando seus movimentos com os olhos. É miúda, guarda os sequilhos e outras obras de suas mãos em uma sacola de vime.

— Mas, escuta, como a senhora chama?
— Mazé. Maria José.

Perguntamos a ela por que são os biscoitos de amarelo tão intenso. Três gotas de urucum na massa, descobrimos. Cada biscoito – há de uns quantos tipos, mas me encantam precisamente as rodinhas de amarelo vivo, furo perfeito no meio – sai por apenas 25 centavos.

“É o vício do trabalho, pra não morrer ligeiro.” Mazé completará 75 anos em março próximo. “Quando o meu marido morreu, deixou o forno e o saber.” Conta-nos que aprendeu o ofício com ele. Compramos alguns, mas não parece ser esse o cerne – deixa-se ficar na conversa.

— Eduquei meus filhos com essas bolsas de polvilho.
— E hoje os filhos não ajudam, dona Mazé? – pergunta minha companheira de mesa.
— Filho não ajuda. É só quando é pequeno que só quer saber de ficar na barra da saia.

Natural de Camocim, percorre esta Fortaleza áspera com a bolsa de vime a tiracolo.