Archive for the ‘Mulheres’ Category

Kuña

11/03/2011

Kuña é um curta-metragem paraguaio, dirigido pelo cineasta Marcos Ramírez, que narra a história de Vidalia, uma mulher vítima de violência doméstica. Foi lançado ano passado (fiquei sabendo por aqui), tem apenas 12 minutos de duração e estou morrendo de vontade de ver. Na falta do filme, fiquemos com o trailer:

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“Vem, Bahetá, com seu povo caminhar”

03/03/2011

Mulheres reunidas na aldeia Bahetá, nov. 2010

(…)

Bahetá, última falante da língua Pataxó Hã-Hãe, pereceu em uma epidemia de cólera, em 1992. Suas palavras, hoje, estão fixadas em uma cartilha com 120 termos. Diz-se que tinha mais de cem anos e era “cismada”; viveu todas as etapas da “conquista” do povo Pataxó Hã-Hã-Hãe.

O que hoje é a aldeia Bahetá, antes, chamava-se Caramuru – o posto de “atração” do SPI. Traziam os índios da mata para a sede, me conta dona Maura; Bahetá foi uma delas. Estamos ao lado da escola, onde antes se erguia a sede do posto, uma construção comprida, com grades para aprisionar os índios. Os que não morreram de sarampo foram ensinados a falar português. “Muito triste perder o idioma. Eles foi pegado no mato e judiado pra aprender português. Os pais tinham medo de ensinar [seu idioma]; fico triste de não saber”, dona Maura diz.

Com o domínio da língua, veio o aprendizado dos outros dotes da civilização. Quando “prontas”, as meninas – filhas e netas dos índios vindos do mato – tinham destinação certa. Dona Maura lembra de todas, pequenas e descalças, reunidas diante da sede do posto. “’Você olha as meninas que a gente tem, escolhe pra levar’. O chefe de posto dava [as meninas] pra quem vinha da cidade. Levavam pra criar, pra servir; muitas delas não voltavam. Cansei de ver muitas parentes minhas sendo levadas, pegadas pela madame pelo braço e colocada no carro. De Ilhéus, Itabuna, até do Rio de Janeiro. Saiu Jandira, Maria Nega, Nenzinha, Maria Preta. A última fui eu. É muito duro você ser criança, sair, ver a sua mãe chorando baixinho, sem poder fazer nada, porque o chefe de posto mandava. Eu chorava que nem desvalida porque sabia que ia ser desgarrada da saia da minha mãe. Eu tive que aprender tudo, pra tomar conta de uma criança.”

Dona Maura não sabe quanto tempo ficou em Itabuna. “Naquele tempo nós não contava anos.” Mas um dia acabou. “Dei meu dente na perna da patroa, arranquei pedaço. Quando eu cheguei, meu pai tava em cima de uma cama mprrendo, minha mãe fraquinha. Tava a Bahetá, Jorge, Dangi, Luzia, que foi matada [Luzia foi morta a facadas, pelo marido; o local de seu assassinato é conhecido como “morte sem vela”], Zequinha. Ficou tudo gravado na minha cabeça.”

(…)

Aqui, o relato completo, que escrevi a partir de uma visita realizada ano passado à aldeia Bahetá (território do povo Pataxó Hã-Hã-Hãe, no sul da Bahia): Vem, Bahetá, com seu povo caminhar. Confesso que é longo, mas ainda assim convido à leitura.

PS. Ao comentar meu texto, Sebastián Gerlic, um amigo que atua junto aos povos indígenas do Nordeste e que também estava em Bahetá, chamou a atenção pra um equívoco: “Dona Maura falou ‘Dona Quitéria Xucuru’ no discurso… mas, eu me aproximei curioso… e ela retificou… se referia a Dona Quitéria Pankararu (outra guerreira que desencarnou)…”. A informação já está correta no arquivo em anexo, mas fica aqui para quem porventura tenha lido antes da correção…

El machismo es violencia

13/02/2011

Campanha contra o machismo produzida pelo governo equatoriano. Eu não acho os vídeos assim tão criativos, mas fico bem feliz que o Estado tenha a iniciativa de veicular uma campanha que não se centra apenas na denúncia da violência mais facilmente detectável, mas vai além, questionando os estereótipos de gênero.

Mais uma liderança Tupinambá é presa

04/02/2011

Sem tempo para escrever, reproduzo a nota do Cimi Itabuna.
Mais uma prisão. Até quando?

***

Prisão de mais uma liderança Tupinambá de Olivença
Por Cimi Equipe Itabuna

A cacique Tupinambá Maria Valdelice de Jesus (Jamapoty), da Aldeia Itapoãn, localizada no município de Ilhéus, foi presa na tarde de ontem (3) por agentes da Polícia Federal (PF) de Ilhéus. Segundo informações obtidas, o mandado foi expedido pelo juiz Federal Pedro Hollyday.

Valdelice esta sendo acusada de ser líder de quadrilha, de comandar uma série de invasões as propriedades rurais desde que foi desencadeada a luta pela recuperação das terras tradicionais Tupinambá.

Segundo o delegado da PF, Fábio Muniz, a cacique prestou depoimento na tarde de ontem e foi transferida para a ala feminina do Presídio de Itabuna.

A comunidade está bastante apreensiva, pois teme que aconteça o mesmo processo que se deu com o cacique Babau, de transferências sucessivas para evitar manifestações da comunidade. Os parentes também estão preocupados com a questão de saúde da cacique, já que a mesma é hipertensa e não teve condições de levar seus remédios. A comunidade esta se mobilizando para manifestarem a sua insatisfação diante da prisão da cacique.

A Procuradoria da Fundação Nacional do Índio (Funai) em Brasília, em contato com o a Procuradoria Federal em Ilhéus, já agilizou um pedido de Habes Corpus para a Cacique.

A comunidade da Serra do Padeiro, através de seu cacique Babau, já manifestou solidariedade e se colocou a disposição da comunidade de Olivença. As entidades de apoio à luta dos povos indígenas se mostram preocupadas com as constantes prisões das lideranças que estão à frente da luta e também manifestam seu apoio e solidariedade a cacique Valdelice e a comunidade Tupinambá de Olivença.

A Maria Schneider

03/02/2011

Só vi dois filmes com Maria Schneider. Mas já foi o bastante para ficar dias e dias com ela na cabeça.

Umas fotos do Ceará

05/01/2011

Em maio passado, viajei a Fortim – cidade cearense à margem do rio Jaguaribe, a poucos quilômetros de seu encontro com o mar – para participar, pela primeira vez, de um encontro de pescadoras.

Lá, conheci mulheres oprimidas, de um lado, pelo avanço da aquicultura e outros males sobre a pesca artesanal. “Na nossa região, os fazendeiros colocam cerca elétrica no rio”, anotei. “Na nossa região, a gente não pode amarrar o barco na margem, porque a beira e o fundo do rio são do fazendeiro.” De outro, pelo machismo, que impede o reconhecimento de sua atuação na pesca. “A mulher vai ao INSS, declarar-se pescadora. ‘Deixa eu ver sua mão.’ O funcionário a manda embora, resmungando: ‘Pescadora de unha feita… tá certo’.”

Movida pelos relatos e discussões, escrevi um primeiro texto — valia-me do fato de estar sentada diante do rio para tentar embeber a escrita com algo do mangue, dunas e vento-ventooooooo da noite. Já em Brasília, vieram uma nota curta e um novo texto, sintetizando os principais debates travados em Fortim a respeito da implementação de políticas públicas para a pesca artesanal atentas para as questões de gênero.

Faço este “resgate” pois gostaria de convidá-los a olhar algumas fotografias que tomei durante a viagem e que só agora tive a decência de organizar. Além de participar do encontro, tive tempo de descer as vielas rumo ao rio, observar seu regime ao longo do dia, o vai-e-vem das jangadas, barcos sendo descarregados e o céu sempre mudando de cores. Também atendi ao convite de Dorinha, pescadora da vila de Fortim, que me levou a conhecer sua casa, sua família e seu cotidiano no mangue (aqui, linhas mal traçadas sobre Dorinha).

Do Fortim, deslizei para a vizinha Aracati – cidade mais entrada no Jaguaribe, que leva o mesmo nome do poético vento. Foram poucas horas aí, suficientes contudo para uma olhada no casario (tão bonito) e um pouco de bulicio na zona do mercado de peixe. Um azul de céu hipnotizante, com as nuvens sempre pinceladas pelo vento. Um ônibus depois, a praia de Canoa Quebrada; é fato que preferia ter estado aí uns quarenta anos atrás mas, indo agora, não deixei de enxergar como ela é bela, especialmente quando, finda a tarde, as falésias se doiram intensamente.

Antes de voltar a Brasília, muito caminhei e mergulhei no Pontal de Maceió e Canto da Barra, duas outras localidades de Fortim. Na ida ao Canto da Barra, vacilei e não fotografei os barcos ancorados na maré baixa; quando voltei, vinda do Pontal, encontrei-os já flutuando… Ainda assim, fiz uma ou outra foto. E dediquei um texto a este passeio, um pouco centrado nas afeições do Branco (o motorista de moto-táxi que me levou) para matizar uma discussão sobre especulação imobiliária.

As fotos (aqui), com sorte, talvez deixem ver os encantos de Fortim e Aracati.

Da esq. para a dir., fachada em Aracati, participante do encontro em Fortim, Canoa Quebrada e jangada na barra do rio Jaguaribe | maio 2010 | Por Daniela Alarcon

Para terminar, deixo-os com as palavras de ordem que aprendi junto às pescadoras:

No rio e no mar: pescador(a) na luta!
No açude e na barragem: pescando a liberdade!
Hidronegócio: resistir!
Cerca nas águas: derrubar

15/10/2010

A cartinha de Dilma sobre o aborto separa verbo transitivo e objeto direto com vírgula. Até isso.
E é esse meu comentário.

Travaux champetres

10/09/2010

Ontem eu recebi uma correspondência de Burkina Faso (nada de excitante, apenas relatório de viagem e comprovantes de embarque da representante de uma organização que participou do nosso Seminário Internacional sobre Políticas Públicas para Mulheres Rurais). Não resisti: tive que escanear os selos. Olhem quem aparece na colheita do milho em primeiro plano!

Boas mulheres não herdam terra

18/08/2010

Muitas mulheres indianas são agricultoras. Na verdade, cada vez mais são elas que trabalham no campo, já que, com a desvalorização das atividades rurais, os homens têm migrado para outros setores.

Algumas nunca percorrem o caminho entre a roça e o mercado mais próximo, onde poderiam vender sua produção. Ou não têm tempo (as tarefas domésticas) ou são impedidas (por si ou por outrem) devido à “vergonha” representada pela exposição em espaços públicos.

Umas poucas, contudo, chegam aos espaços de comercialização. Passam a manhã sem vender nada — sabendo que elas têm de estar em casa antes do cair da noite (para cuidar da casa, dos homens, dos filhos), os compradores esperam o momento certo, quando podem oferecer o preço mais baixo, quando elas necessariamente têm de aceitar.

***

Claro que a descrição acima, um tanto livre, não dá conta de particularidades e nem aprofunda a questão. Mas, segundo a pesquisadora indiana Nytia Rao (que conheci no Seminário Internacional Políticas Públicas para as Mulheres Rurais), ela é representativa das limitações que vivem muitas e muitas camponesas indianas.

Cada vez mais presentes no trabalho rural, seguem alijadas dos recursos (para ficar em um dado: apenas 10% dos proprietários de terras são mulheres, observa Nytia, percentual praticamente inalterado nos últimos vinte anos).

Ainda que a Constituição garanta às mulheres os mesmos direitos fundamentais dos homens, Nytia lembra o peso que o direito privado (em especial, os testamentos) e o religioso exercem sobre o acesso à propriedade da terra.

Tome-se o Hindu Succession Act (1956), por exemplo, que legisla sobre a herança entre os hindus. Foi apenas em 2005 que uma emenda passou a garantir direitos iguais a homens e mulheres.

Para terminar… Nytia é autora de um livro, editado em 2008, que parece bem interessante (mas que provavelmente acabarei não lendo, já que o tempo anda curto). Se alguém quiser ler e me contar…: Good women do not inherit land: Politics of land and gender in India [Boas mulheres não herdam terra: Políticas de terras e gênero na Índia].

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Da “série” sobre o Seminário Internacional Políticas Públicas para Mulheres Rurais, que aconteceu de 2 a 6 de agosto em Brasília, reunindo representantes de 23 países da América Latina, Ásia e África:

1. Um recado do Chile (13 ago. 2010)
2. Reflexões a partir de Cuetzalan (17 ago. 2010)

Reflexões a partir de Cuetzalan

17/08/2010

Uma pesquisa realizada recentemente no estado mexicano de Puebla constatou o alto índice de mulheres indígenas vítima de violência. Durante o Seminário Internacional Políticas Públicas para as Mulheres Rurais, pude assistir à apresentação de Elia Pérez Nasser, que desenvolveu um estudo de caso em Cuetzalan, norte do estado.

Como principais autores dos maus tratos: pais, padrastos, companheiros e… sogras/os. Estes últimos, ao que eu saiba, não aparecem como violentadores frequentes quando se olha para o problema sem o recorte étnico. Talvez a explicação resida na organização familiar dessas comunidades indígenas – tios e tias também são citados como agressores.

Quase metade das mulheres lembrava-se de haver presenciado, na infância, agressões contra outras mulheres da casa. Mais da metade haviam sido as próprias vítimas, quando crianças. Muitas – cifra sintomaticamente indefinida – eram ou haviam sido estupradas pelos próprios companheiros (as famigeradas violaciones matrimoniales).

Bem, mas se eu tivesse de destacar os comentários de Elia que me pareceram mais sugestivos, seriam:

1. É necessário que as políticas públicas valorizem os vários modos de ser homem e ser mulher (políticas não se fazem deslocadas do contexto – óbvio, mas não é a prática corrente, definitivamente);

2. A violência contra as mulheres – tanto em comunidades indígenas, como em comunidades não indígenas – precisa ser compreendida tendo suas causas relacionadas à construção da identidade (a violência muitas vezes aparece como “parte das prerrogativas masculinas no exercício do poder”);

3. No caso das mulheres indígenas, especialmente, há que se jogar um holofote sobre a violência institucional, potencializada muitas vezes pela discriminação linguística;

4. É preciso ter olhar atento para as políticas públicas: muitas ações são assistencialistas e não promovem a autonomia das mulheres; algumas guardam ainda contradições entre si;

5. O Judiciário é um flanco. No caso mexicano, Elia destaca que as leis precisam ser menos vagas; que parte da jurisprudência ainda emprega como atenuante a noção de “provocação” por parte da vítima; e que as denúncias costumam “parar” em algum ponto da burocracia, deixando de seguir até os tribunais;

6. O olhar das mulheres indígenas sobre o poder público vem, muitas vezes, carregado de desconfiança – há a burocracia, faltam tradutores e comumente os processos dão margem a diferentes violações de sua intimidade. Esse saber, elas construíram empiricamente… e não é uma carta de boas intenções que vai descontruí-lo.

Mas essas são minhas anotações, apenas. A íntegra da apresentação de Elia, ei-la aqui.

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Da “série” sobre o Seminário Internacional Políticas Públicas para Mulheres Rurais, que aconteceu de 2 a 6 de agosto em Brasília, reunindo representantes de 23 países da América Latina, Ásia e África:

1. Um recado do Chile (13 ago. 2010)
3. Boas mulheres não herdam terra (18 ago. 2010)