Archive for the ‘Mayuscula_América’ Category

Pausa no recesso

12/05/2011

Pra dizer que eu tô apaixonada por esta foto (infelizmente em baixa resolução) do Julio Antonio Mella:

Anúncios

Kuña

11/03/2011

Kuña é um curta-metragem paraguaio, dirigido pelo cineasta Marcos Ramírez, que narra a história de Vidalia, uma mulher vítima de violência doméstica. Foi lançado ano passado (fiquei sabendo por aqui), tem apenas 12 minutos de duração e estou morrendo de vontade de ver. Na falta do filme, fiquemos com o trailer:

Sobre topônimos e autocomiseração

19/01/2011

Eu gosto de topônimos. Na Cordilheira Central da Costa Rica, a nordeste do Vulcão Poás (aquele que tem um lindo lago azul claro, de águas escaldantes e sulfurosas, recobrindo uma de suas crateras), o que encontro no mapa? A Depresión del Desengaño. A minha imaginação se derrama.

A Rodolfo Walsh

28/12/2010

Desamparada ao terminar Essa mulher e outros contos, que reúne três livros (onze contos e uma entrevista) de Rodolfo Walsh.

É o primeiro livro de Walsh que leio. Há quatro anos, desde que dele tomei notícia, ensaio ter em mãos Operação Massacre. (Uma pobre alma que leciona na Letras, a qual eu importunava com pedidos de indicações de leituras hispanoamericanas, sugeriu-me o livro; antes de saber do que se tratava, já estava impressionada com a forma como essas duas palavras se equilibravam no título.)

Minha faculdade estava tão ocupada em se masturbar com A sangue frio numa das mãos, a ponto de não perder tempo com o livrinho hermano que o antecedeu — não que me importe com isso de quem veio antes, definitivamente, mas ficaria bem feliz de terem mencionado em sala de aula a existência de Operação Massacre sobre a Terra. Mas eu entendo: não seria chique trazer para perto de um dândi um latinoamericano que, por não proteger sua prosa da política, acabou metralhado numa rua. Se até o corpo dele sumiu… (Este ano a Companhia das Letras o editou na coleção de Jornalismo Literário; com o verniz recém-adquirido, quem sabe não entrou no currículo?)

Bem, lá se vai mais um ano sem que eu o tenha lido. (Amanhã: ida à livraria.) Mas agora já conheço sua Carta Abierta a la Junta Militar, datada de um dia antes de seu assassinato e desaparição (aqui, sua companheira relata a feitura da carta, que ele remeteu a alguns endereços na Argentina e em outros países — um dos destinatários foi meu jornal-fetiche, o Versus). E li, na tensão entre devorar e prolongar, esses onze contos impressionantes. Agora me sinto na obrigação moral de cutucar, a quem eu encontrar, com um imperativo de leitura.

*Só para registro: a publicação de ambos os livros no Brasil, este ano, não é uma reparação do silêncio voluntariamente levada a cabo pelo mercado editorial brasileiro; as traduções foram financiadas por um programa do governo argentino.

***

Depois que publiquei o texto acima, o editor de Essa mulher… comentou-o, retificando uma informação (quando eu falo das editoras brasileiras). Acho que convém não deixá-lo pouco visível, apenas lá nos comentários:

“(…) Da minha parte, como editor e cotradutor do livro, tenho só que fazer um pequeno reparo à sua ‘nota de rodapé’: houve, sim, um movimento voluntário no sentido de romper o silêncio que por tanto tempo isolou a obra de Rodolfo Walsh no Brasil.

A contribuição do governo argentino se deu por meio do Programa Sur de Apoio à Tradução, que apenas cobriu parte das despesas de tradução. Uma subvenção nos moldes da que é oferecida por boa parte dos países europeus (França, Portugal, Espanha, Alemanha, Holanda, Dinamarca, Romênia, Rep. Tcheca etc.) e por alguns países latino-americanos, como México e o próprio Brasil. Em todos eles, a escolha do título a traduzir, as características da edição e os profissionais a realizá-la são de inteira responsabilidade dos editores — no caso, da Editora 34”.

Rodolfo Walsh

Monotemático

24/10/2010

Meu mundo está monotemático.

Ontem, dei uma pausa na pesquisa sobre os Tupinambá para descobrir que Mondovino — filme que eu devia ter assistido há anos — fala muito menos de vinho que dos mecanismos usados pela modernização capitalista para varrer a diversidade de modos de vida e produção.

Hoje, quando interrompi a leitura prum cafezinho, sem querer o fiz justo quando a TV Câmara transmitia um documentário da TAL TV sobre a expropriação das terras indígenas na Argentina.

Uruguai confronta a ditadura

21/10/2010

Maioria do Frente Amplia na Câmara dos Deputados uruguaia garante aprovação do projeto de lei que DERRUBA a infame Lei de Caducidade — que anistiava os assassinos e torturadores da ditadura uruguaia. Agora falta o Senado.

Lindo, Uruguai!

Firmá para que la impunidad no siga impune | Montevideo, 22 dez. 2008 | Por Daniela Alarcon

Tres veces mayor

29/06/2010

“En Guatemala, las mujeres indígenas mueren en el embarazo o dando a luz en un porcentaje tres veces mayor que las mujeres no indígenas.”

Um mês depois, consegui ler os boletins de maio do Noticias Aliadas… Fica a sugestão: “Comadronas indígenas luchan por derechos reproductivos”, de Louisa Reynolds. Mulheres morrendo no parto ou em decorrência dele pois os médicos não falam seu idioma — que tal?

“Ser indígena não é boa notícia”

25/06/2010

“No caso do Peru, ser indígena não é boa notícia; ser mulher, tampouco. Mas ser os dois é estar à margem de tudo.” Atualmente, Rosemary Thorp, do Centre for Research on Inequality, Human Security and Ethnicity, da Universidade de Oxford, desenvolve a hipótese de uma correlação entre desigualdade étnica e violência política no Peru. Para ela, o nexo se intensifica conforme se acumulam desigualdades – como no exemplo, em que etnia e gênero se congregam para uma dupla opressão.

Hoje, assisti a um painel com a presença de Rosemary e de sua colega Corinne Caumartin, que vem trabalhando a mesma hipótese para a Guatemala. O projeto desenvolvido por ambas, junto a outros três pesquisadores, abarca, ainda, a Bolívia.

Quem vem da serra é terrorista

Brevemente, Rosemary traçou um panorama sobre as instituições peruanas, as relações sociais e as escolhas econômicas, tendo sempre a desigualdade étnica como prisma. Também ao olhar para o interior dos movimentos populares reivindica a centralidade desse fator. Em estudo sobre o movimento em torno dos restaurantes populares em Lima, observou que as posições de liderança tendiam a ser ocupadas por mestiços, que apresentavam mais anos de estudo e maior trânsito no mundo branco, ao passo que as bases eram eminentemente indígenas. Com o passar do tempo, a clivagem se aprofundou, a ponto de comprometer o movimento.

Já em relação ao Sendero Luminoso, Rosemary avalia que, ainda que não se estivesse de um conflito de matriz étnica, as desigualdades entre brancos, mestiços e indígenas também desempenhavam seu papel. De um lado, pela sensível correlação entre etnia e grau de vulnerabilidade à violência. De outro, no aprofundamento de estereótipos já existentes ou na criação de novos. Um entrevistado lhe contou que, sendo indígena, no auge da guerrilha era-lhe quase impossível conseguir emprego na região costeira. “‘Quem vem da serra é terrorista’ – esse era um nexo fatal em termos de mercado de trabalho”, pontua Rosemary.

Para muitas mulheres indígenas, observa, a guerrilha e a repressão trouxeram um efeito inesperado. Com os deslocamentos forçados, famílias das serras tiveram de ganhar a vida nas cidades costeiras. Como pairava sobre os homens do altiplano a pecha de terroristas em potencial, muitas vezes coube às mulheres prover a família. Findo esse período de “excepcionalidade” nas relações familiares, muitas guardavam consigo a experiência de uma autonomia inédita, ainda que efêmera. Mas, Rosemary observa, a essa mudança quase “acidental” não se somaram políticas públicas específicas, de modo que seu potencial de transformação foi praticamente perdido.

Etnocídio e multiculturalismo neoliberal

Corinne nos fez visualizar o nexo entre desigualdade étnica e desigualdade de renda na Guatemala com muita facilidade: o mapa da esquerda indicava o percentual indígena em relação à população total de cada região; o da direita, a distribuição de renda ao longo do território. Eram desenhos praticamente coincidentes.

E então seguiu, em uma caracterização sombria e desesperançada do pequeno país. Uma elite pouco numerosa, mas poderosa e refratária a quaisquer medidas de redistribuição de renda; relações de trabalho profundamente exploratórias e uma divisão étnica do mercado de trabalho muito marcada; intensa concentração de terras e nenhuma perspectiva de reforma agrária.

Como herança, décadas de brutal repressão estatal. Estima-se que entre 200 mil a 250 mil pessoas morreram ou desapareceram durante a ditadura (a grande maioria entre 1978 e 1983). “Mais de 90% dos atos de violência foram cometidos por agentes de segurança pública”, observou Corinne. “Mais de 80% das vítimas foram indígenas.” A Comisión para el Esclarecimiento Histórico (CEH) guatemalteca, em seu relatório final, de 1999, concluiu que o exército foi responsável por atos de genocídio contra indígenas em ao menos quatro regiões do país.

Além disso, disse Corinne, a história do país desde o golpe apresenta muitos pontos de disputa no que diz respeito às diferenças étnicas. Quais as vinculações entre as populações indígenas e o movimento guerrilheiro? Como se deu a resistência indígena? De que modo eram tratadas, que papel cumpriam as diferenças étnicas nos projetos de nação dos setores que lutaram contra a ditadura?

Os dados acerca da presença indígena no Estado, apresentados por Corinne, dão conta de um crescimento mui tímido ao longo das últimas décadas. Anotei apenas três percentuais, relativos a 2008: dos ministros e vice-ministros, 6,8% eram indígenas; dos diplomatas, 8%; no tribunal eleitoral, somavam 7,7%. Isso em um país onde o percentual de indígenas é estimado entre 40 a 60% da população. No Congresso, por outro lado, o processo de paz não teve qualquer impacto sobre a presença de indígenas: desde a década de 1970, ela segue na casa dos 10%. A esfera em que mais se avançou, observou Corinne, foi o poder local – em 2003, os indígenas preenchiam 36% dos cargos. Mas, aqui também encontramos exemplificado o fenômeno da dupla desigualdade: dentre os alcaldes indígenas (desculpem, perdi o número absoluto e estou sem tempo para pesquisar agora), uma apenas era mulher.

Quem quer ir comigo à Guatemala?

Poderia continuar horas escrevendo sobre a Guatemala… Mas vou fazer melhor que isso:

1. Remeter ao trabalho de Corinne, “Racism, Violence, and Inequality: An Overview of the Guatemalan Case” (2005), ou ao mais recente “Gender and Ethnic Inequalities in Latin America: A Multidimensional Comparison of Bolivia, Guatemala and Peru” (2008), de Manuel Barron, pesquisador do mesmo grupo.

2. Sugerir que leiam um breve balanço da Anistia Internacional sobre os dez anos (que se cumpriram ano passado) da conclusão dos trabalhos da CEH.
Uma amostra: “En total, la CEH documentó 669 masacres, 626 de las cuales eran atribuibles a las fuerzas del Estado. Hasta la fecha, menos de cinco de estos casos de graves violaciones de derechos humanos han dado lugar a condenas en los tribunales guatemaltecos, y únicamente para militares de baja graduación. Ningún militar de alta graduación ni autoridad ha comparecido nunca ante la justicia por ordenar, planificar o llevar a cabo las violaciones de derechos humanos generalizadas y sistemáticas de las que fueron responsables”.

3. Indicar um texto que escrevi quando trabalhava na Campanha Lainoamericana pelo Direito à Educação: “Mujer indígena guatemalteca narra caso de discriminación del derecho a la educación”.

4. Intimar: leiam Miguel Ángel Asturias, leiam! Tudo vale a pena: sua tradução do Popol Vuh, o Leyendas de Guatemala, Hombres de Maiz… Mas não dá pra morrer sem ler Week-end na Guatemala

Para finalizar, anoto uma noção interessante trazida por Corinne: a Guatemala viveria hoje, como ideologia de Estado, um “multiculturalismo neoliberal”, em que os avanços se dão, muito mais, no campo do reconhecimento de identidades que de transformações estruturais. E, mesmo assim, são reduzidos: em um univeso de cerca de 20 grupos linguísticos distintos, o espanhol segue reinando como único idioma oficial.

Violência contra mulheres na política

E para terminar mesmo, compartilho uma informação que recebemos de Corinne: a Asociación de Concejales de Bolivia (Acobol) vem desenvolvendo um observatório sobre violência contra mulheres na política, registrando ameaças e agressões. Em boa matéria da Alai (recomendo deveras), leio que elas estão em campanha em favor da aprovação, pelo Congresso, da Ley contra el Acoso y la Violencia Política en Razón de Género!

Uma das denúncias: “La encerraron en una habitación, la golpearon y hasta la amenazaron con un arma de fuego para que firmase su renuncia al cargo político que ostentaba, por el simple hecho de ser mujer”. (…)

Alegria, alegria

31/05/2010

Hoje acordei bem mais cedo do que precisava, de modo que decidi começar o dia pelas notícias — café com leite e meias.

Começo pela espionagem ao MST durante o governo Sarney, passando pela cândida entrevista do ex-presidente — quem, eu?, de nada sei. Então há Gaza e o ataque israelense — o todo mundo cale a boca em hebraico que se ouviu no barco me devolve à sequência-pesadelo do avião em O avesso da vida, do Philip Roth — livro do qual nem gosto tanto assim, mas que me vem de pronto, e, com ele, o mal estar.

Daí passo às repercussões em cima da fala do sempre imbecil Serra, sobre a Bolívia. E sua tréplica — proferida, aliás, num encontro em Cuiabá (simbólico) sobre investimentos no agronegócio, setor por ele chamado de “âncora verde”. Maravilha. Promete, entre outras cositas, a renegociação de dívidas agrícolas. Bem, um dos nomes cotados pelo DEM para a vice-presidência do rapaz é a musa ruralista-fascista, Katia Abreu.

A situação eleitoral na Colômbia e terminamos com a taxa assombrosa de feminicídios na América Central. Esta vale a pena ler, mas preparados para o horror.

Puta que pariu

15/05/2010

Que assim é choro certo na tarde de sábado ensolarada e morninha. Porra, Zitarrosa, precisava ser um criador de imagens tão preciso?
* Para ouvir (num daqueles vídeos com fotos, fazer o quê): a parte 1 e a parte 2.