Archive for the ‘Lembranças’ Category

Nostalgia alheia

22/06/2010

Fixação por memórias: As minhas universidades, do Górki (nota: reler na edição da Cosac, porque o volume da Ediouro é quase intolerável para esta ex-revisora); a Infância do Coetzee e a do Graciliano. Aceitando sugestões: quem será o próximo?

Observação pertinente: Qual seria a mágica pra fazer os filmes da memória avançarem de um ponto em que sempre estacam? Por exemplo, o que acontece depois de quando eu derrubo a caixa de lápis de cor daquela menina mais velha e má do prezinho, o que vem depois de eu agachada catando os lápis espalhados entre as pernas que passam em pleno recreio? E a mágica para ampliar o recorte da imagem? O que há para além do chão de azulejos do quintal da casa da avó e de uma fatia de pulso branco e macio, quando a pulseirinha de ouro estoura e cai no chão? E para voltar àquela certeza que antecede o momento em que se instala a dúvida que detona tudo? Eram lápis de cor? Mas agora eu penso que antes estava certa de que eram canetinhas daquelas de corpo colorido e tampa branca. E agora já era: não eram lápis nem canetinhas, nem nunca mais serão; agora só podem ser dúvida. De modo que o que sobra de autêntico daquele dia é apenas humilhação.

Não ia falar, mas…

21/06/2010

Furar fila é muito feio. Mas estou certa de que quando eu e Lia (porra, comprometer os amigos é feio também) furamos aquela fila em Porto Alegre, no Fórum Social Mundial de 2005, para ver e ouvir Saramago e Galeano, fizemos bem. Aquele dia, ambos falaram sobre utopia…

De ponta a ponta

02/06/2010

“Vou lhe contar uma história, que você não vai entender bem”, diz minha amiga. “Não tem problema, você me explica.”

(Não pensava em escrever sobre isso, mas ouço Que reste t’il de nos amour, e então é quase um imperativo.)

Ontem à noite, minha amiga lia o jornal. Quis contar à filha, ficou para depois, nos afazeres a filha se esqueceu. Mas ela não. Só nos encontramos hoje à tarde: ela calou esta história a manhã toda; por isso, seus olhos diminuíram.

Tinha quase 18 anos e estava no cinema com a mãe. Então esse homem bonito, de mais de 30, sentou-se de um lado, trocou de poltrona, passou na sua frente, e finalmente deslizou um bilhete para o seu colo. A sessão inteira com o papel queimando na mão. Nome e telefone. Encontraram-se e se encantaram. Mas ele: “Essa história é muito mais complicada do que você imagina”. Casado, talvez; ela teve medo.

O homem caminhava a praia inteira à procura dela. Ela o viu mais de uma vez, e lhe faltou coragem para se mostrar a ele. Que não tinha como encontrá-la, endereço, telefone, nada.

Passados dois anos, um amigo dela passou a trabalhar com ele. Aqui a história me escapa um pouco. Mas o que importa: por meio do amigo, ela soube que sim, ele estava então se separando da mulher, de fato se apaixonara por ela, mas, não a podendo mais encontrar, tomara seu rumo. Aquele encontro apenas, e fim.

Quando, ontem, viu o nome dele no obituário, sentiu toda a angústia do não acontecido. E de tentar, sem conseguir, conceber o homem de 80 anos, filhos, netos, morto — via apenas o jovem caminhando na praia de ponta a ponta, de ponta a ponta, atrás da menina linda.

Edmar Bregmam, por Glauco

12/03/2010