Archive for the ‘Leituras’ Category

O bode da despedida

25/03/2011

O início do semestre letivo (já com olheiras e dores no corpo todo) explica o porquê de eu deixar este espaço às moscas até, com sorte, julho próximo.

Para oferecer uma boa despedida, publico a tradução inédita de uma canção tcheca, “O bode” (Kozel), de Jaromir Nohavica. A tradução é de Petra Mocová, professora de tcheco da minha irmã, com revisão minha e dessa minha irmã semitcheca.

Petra e seu namorado traduziram um conjunto de canções de Nohavica — que, segundo ela, é uma espécie de Chico Buarque da Europa Central — e eu me encantei particularmente com essa. Agora, depois de a tradução receber o aval do compositor, posso dividi-la. E… ¡hasta la vista!

Era uma vez um homem
que tinha um bode.
Os dois se davam
muito bem,
o homem gostava muito dele –
realmente muito –
e afagava-lhe a barbicha
para lhe dar boa noite.

Um dia
o bode, por engano,
comeu-lhe a camiseta vermelha,
e o homem, quando reparou,
gritou “ora, ora”,
amarrou o bode
e o colocou
nos trilhos do trem.

O trem apitou,
o bode se asustou,
“isto é a minha morte”,
berrou “mé-mé”,
e tanto berrava
que depois tossiu
a camiseta vermelha
e, com isso, o trem parou.

A Rodolfo Walsh

28/12/2010

Desamparada ao terminar Essa mulher e outros contos, que reúne três livros (onze contos e uma entrevista) de Rodolfo Walsh.

É o primeiro livro de Walsh que leio. Há quatro anos, desde que dele tomei notícia, ensaio ter em mãos Operação Massacre. (Uma pobre alma que leciona na Letras, a qual eu importunava com pedidos de indicações de leituras hispanoamericanas, sugeriu-me o livro; antes de saber do que se tratava, já estava impressionada com a forma como essas duas palavras se equilibravam no título.)

Minha faculdade estava tão ocupada em se masturbar com A sangue frio numa das mãos, a ponto de não perder tempo com o livrinho hermano que o antecedeu — não que me importe com isso de quem veio antes, definitivamente, mas ficaria bem feliz de terem mencionado em sala de aula a existência de Operação Massacre sobre a Terra. Mas eu entendo: não seria chique trazer para perto de um dândi um latinoamericano que, por não proteger sua prosa da política, acabou metralhado numa rua. Se até o corpo dele sumiu… (Este ano a Companhia das Letras o editou na coleção de Jornalismo Literário; com o verniz recém-adquirido, quem sabe não entrou no currículo?)

Bem, lá se vai mais um ano sem que eu o tenha lido. (Amanhã: ida à livraria.) Mas agora já conheço sua Carta Abierta a la Junta Militar, datada de um dia antes de seu assassinato e desaparição (aqui, sua companheira relata a feitura da carta, que ele remeteu a alguns endereços na Argentina e em outros países — um dos destinatários foi meu jornal-fetiche, o Versus). E li, na tensão entre devorar e prolongar, esses onze contos impressionantes. Agora me sinto na obrigação moral de cutucar, a quem eu encontrar, com um imperativo de leitura.

*Só para registro: a publicação de ambos os livros no Brasil, este ano, não é uma reparação do silêncio voluntariamente levada a cabo pelo mercado editorial brasileiro; as traduções foram financiadas por um programa do governo argentino.

***

Depois que publiquei o texto acima, o editor de Essa mulher… comentou-o, retificando uma informação (quando eu falo das editoras brasileiras). Acho que convém não deixá-lo pouco visível, apenas lá nos comentários:

“(…) Da minha parte, como editor e cotradutor do livro, tenho só que fazer um pequeno reparo à sua ‘nota de rodapé’: houve, sim, um movimento voluntário no sentido de romper o silêncio que por tanto tempo isolou a obra de Rodolfo Walsh no Brasil.

A contribuição do governo argentino se deu por meio do Programa Sur de Apoio à Tradução, que apenas cobriu parte das despesas de tradução. Uma subvenção nos moldes da que é oferecida por boa parte dos países europeus (França, Portugal, Espanha, Alemanha, Holanda, Dinamarca, Romênia, Rep. Tcheca etc.) e por alguns países latino-americanos, como México e o próprio Brasil. Em todos eles, a escolha do título a traduzir, as características da edição e os profissionais a realizá-la são de inteira responsabilidade dos editores — no caso, da Editora 34”.

Rodolfo Walsh

Pifff

07/10/2010

Não!
Vargas Llosa virou Nobel.

A aula de francês

04/08/2010

A aporrinhação de ter de passar 1h30 no mesmo recinto que 7 playboys de 17 anos (playboys brasilienses são piores que playboys em geral, vou concluindo) e toda a aventura de não perder o pé no sotaque do professor de Togo. Togo! Fascinante conhecer o primeiro togolês da minha vida, mas, de fato, por ora eu dispensaria o desafio linguístico extra.

versus

O flerte na biblioteca, baseado em Jean Genet e cumplicidade nerd-marginal. Desses que nascem para dar em nada, por óbvio, mas que a gente banca só pra se assegurar de que não perdemos a prática.

Minha aplicação da lei das compensações foi meio desbalanceada hoje. Nada contra a cena na biblioteca — tivemos um ótimo senso de oportunidade e bom ritmo –, mas EU NÃO AGUENTO 7 MOLEQUES BURROS COM CARA DE CAPITÃO DO TIME DE BASEBALL, 1H30 DE CONVERSA PARALELA E RISADAS ABOBALHADAS.

Maldição.

Vagina dentata

25/07/2010

“Como não temer um ser que nunca é tão perigoso como quando sorri? A caverna sexual tornou-se a fossa viscosa do inferno.” História do medo no Ocidente, Jean Delumeau (mais precisamente o capítulo “Os agentes de Satã: A mulher”) — nada como leitura amena prum domingo parcialmente nublado.

Mas o bacana é que de repente passei a me considerar muito esperta por ter chegado sozinha, aos 16, a várias das constatações presentes no livro. O que seu Delumeau faz com uma penca de fontes documentais, ha!, eu fiz com um namoro adolescente. A prática, a prática.

(Mas, ok, reconheço os méritos da leitura. Ou alguém aqui sabia que se levantaram mais de 300 (!) versões do mito da vagina dentata entre os indígenas norte-americanos? E que na Índia há uma variação: serpentes em lugar dos dentes?)

Fogo!

05/07/2010

Quando falavam que esta é época de incêndios em Brasília, eu não pensava que isso incluía carros — como o do meu vizinho, que acaba de derreter diante do prédio!
Agora meu apartamento cheira a coisas tóxicas e os olhos tão ardendo.
Brasília do inferno!
Ô, seu bombeiro, deixa eu dar um passeio num dos TRÊS carros que tão estacionados embaixo da minha janela, pra espantar o tédio?
(Ah, que bacana, tem FULIGEM na minha horta.)
Que me desculpem os brasilienses, mas tá difícil encarar esta cidade depois de um fim de semana ébrio e inebriante em São Paulo.
E, aproveitando o ensejo e a pegada aleatória da coisa toda: adiante, Uruguai, adiante, paisito!

PS. Só pra não deixar a coincidência passar despercebida: hoje pela manhã fui trabalhar lendo as várias (e, convenhamos, tediosas) páginas que o Górki dedica a incêndios n’O Vagabundo Original.

“Ser indígena não é boa notícia”

25/06/2010

“No caso do Peru, ser indígena não é boa notícia; ser mulher, tampouco. Mas ser os dois é estar à margem de tudo.” Atualmente, Rosemary Thorp, do Centre for Research on Inequality, Human Security and Ethnicity, da Universidade de Oxford, desenvolve a hipótese de uma correlação entre desigualdade étnica e violência política no Peru. Para ela, o nexo se intensifica conforme se acumulam desigualdades – como no exemplo, em que etnia e gênero se congregam para uma dupla opressão.

Hoje, assisti a um painel com a presença de Rosemary e de sua colega Corinne Caumartin, que vem trabalhando a mesma hipótese para a Guatemala. O projeto desenvolvido por ambas, junto a outros três pesquisadores, abarca, ainda, a Bolívia.

Quem vem da serra é terrorista

Brevemente, Rosemary traçou um panorama sobre as instituições peruanas, as relações sociais e as escolhas econômicas, tendo sempre a desigualdade étnica como prisma. Também ao olhar para o interior dos movimentos populares reivindica a centralidade desse fator. Em estudo sobre o movimento em torno dos restaurantes populares em Lima, observou que as posições de liderança tendiam a ser ocupadas por mestiços, que apresentavam mais anos de estudo e maior trânsito no mundo branco, ao passo que as bases eram eminentemente indígenas. Com o passar do tempo, a clivagem se aprofundou, a ponto de comprometer o movimento.

Já em relação ao Sendero Luminoso, Rosemary avalia que, ainda que não se estivesse de um conflito de matriz étnica, as desigualdades entre brancos, mestiços e indígenas também desempenhavam seu papel. De um lado, pela sensível correlação entre etnia e grau de vulnerabilidade à violência. De outro, no aprofundamento de estereótipos já existentes ou na criação de novos. Um entrevistado lhe contou que, sendo indígena, no auge da guerrilha era-lhe quase impossível conseguir emprego na região costeira. “‘Quem vem da serra é terrorista’ – esse era um nexo fatal em termos de mercado de trabalho”, pontua Rosemary.

Para muitas mulheres indígenas, observa, a guerrilha e a repressão trouxeram um efeito inesperado. Com os deslocamentos forçados, famílias das serras tiveram de ganhar a vida nas cidades costeiras. Como pairava sobre os homens do altiplano a pecha de terroristas em potencial, muitas vezes coube às mulheres prover a família. Findo esse período de “excepcionalidade” nas relações familiares, muitas guardavam consigo a experiência de uma autonomia inédita, ainda que efêmera. Mas, Rosemary observa, a essa mudança quase “acidental” não se somaram políticas públicas específicas, de modo que seu potencial de transformação foi praticamente perdido.

Etnocídio e multiculturalismo neoliberal

Corinne nos fez visualizar o nexo entre desigualdade étnica e desigualdade de renda na Guatemala com muita facilidade: o mapa da esquerda indicava o percentual indígena em relação à população total de cada região; o da direita, a distribuição de renda ao longo do território. Eram desenhos praticamente coincidentes.

E então seguiu, em uma caracterização sombria e desesperançada do pequeno país. Uma elite pouco numerosa, mas poderosa e refratária a quaisquer medidas de redistribuição de renda; relações de trabalho profundamente exploratórias e uma divisão étnica do mercado de trabalho muito marcada; intensa concentração de terras e nenhuma perspectiva de reforma agrária.

Como herança, décadas de brutal repressão estatal. Estima-se que entre 200 mil a 250 mil pessoas morreram ou desapareceram durante a ditadura (a grande maioria entre 1978 e 1983). “Mais de 90% dos atos de violência foram cometidos por agentes de segurança pública”, observou Corinne. “Mais de 80% das vítimas foram indígenas.” A Comisión para el Esclarecimiento Histórico (CEH) guatemalteca, em seu relatório final, de 1999, concluiu que o exército foi responsável por atos de genocídio contra indígenas em ao menos quatro regiões do país.

Além disso, disse Corinne, a história do país desde o golpe apresenta muitos pontos de disputa no que diz respeito às diferenças étnicas. Quais as vinculações entre as populações indígenas e o movimento guerrilheiro? Como se deu a resistência indígena? De que modo eram tratadas, que papel cumpriam as diferenças étnicas nos projetos de nação dos setores que lutaram contra a ditadura?

Os dados acerca da presença indígena no Estado, apresentados por Corinne, dão conta de um crescimento mui tímido ao longo das últimas décadas. Anotei apenas três percentuais, relativos a 2008: dos ministros e vice-ministros, 6,8% eram indígenas; dos diplomatas, 8%; no tribunal eleitoral, somavam 7,7%. Isso em um país onde o percentual de indígenas é estimado entre 40 a 60% da população. No Congresso, por outro lado, o processo de paz não teve qualquer impacto sobre a presença de indígenas: desde a década de 1970, ela segue na casa dos 10%. A esfera em que mais se avançou, observou Corinne, foi o poder local – em 2003, os indígenas preenchiam 36% dos cargos. Mas, aqui também encontramos exemplificado o fenômeno da dupla desigualdade: dentre os alcaldes indígenas (desculpem, perdi o número absoluto e estou sem tempo para pesquisar agora), uma apenas era mulher.

Quem quer ir comigo à Guatemala?

Poderia continuar horas escrevendo sobre a Guatemala… Mas vou fazer melhor que isso:

1. Remeter ao trabalho de Corinne, “Racism, Violence, and Inequality: An Overview of the Guatemalan Case” (2005), ou ao mais recente “Gender and Ethnic Inequalities in Latin America: A Multidimensional Comparison of Bolivia, Guatemala and Peru” (2008), de Manuel Barron, pesquisador do mesmo grupo.

2. Sugerir que leiam um breve balanço da Anistia Internacional sobre os dez anos (que se cumpriram ano passado) da conclusão dos trabalhos da CEH.
Uma amostra: “En total, la CEH documentó 669 masacres, 626 de las cuales eran atribuibles a las fuerzas del Estado. Hasta la fecha, menos de cinco de estos casos de graves violaciones de derechos humanos han dado lugar a condenas en los tribunales guatemaltecos, y únicamente para militares de baja graduación. Ningún militar de alta graduación ni autoridad ha comparecido nunca ante la justicia por ordenar, planificar o llevar a cabo las violaciones de derechos humanos generalizadas y sistemáticas de las que fueron responsables”.

3. Indicar um texto que escrevi quando trabalhava na Campanha Lainoamericana pelo Direito à Educação: “Mujer indígena guatemalteca narra caso de discriminación del derecho a la educación”.

4. Intimar: leiam Miguel Ángel Asturias, leiam! Tudo vale a pena: sua tradução do Popol Vuh, o Leyendas de Guatemala, Hombres de Maiz… Mas não dá pra morrer sem ler Week-end na Guatemala

Para finalizar, anoto uma noção interessante trazida por Corinne: a Guatemala viveria hoje, como ideologia de Estado, um “multiculturalismo neoliberal”, em que os avanços se dão, muito mais, no campo do reconhecimento de identidades que de transformações estruturais. E, mesmo assim, são reduzidos: em um univeso de cerca de 20 grupos linguísticos distintos, o espanhol segue reinando como único idioma oficial.

Violência contra mulheres na política

E para terminar mesmo, compartilho uma informação que recebemos de Corinne: a Asociación de Concejales de Bolivia (Acobol) vem desenvolvendo um observatório sobre violência contra mulheres na política, registrando ameaças e agressões. Em boa matéria da Alai (recomendo deveras), leio que elas estão em campanha em favor da aprovação, pelo Congresso, da Ley contra el Acoso y la Violencia Política en Razón de Género!

Uma das denúncias: “La encerraron en una habitación, la golpearon y hasta la amenazaron con un arma de fuego para que firmase su renuncia al cargo político que ostentaba, por el simple hecho de ser mujer”. (…)

Nostalgia alheia

22/06/2010

Fixação por memórias: As minhas universidades, do Górki (nota: reler na edição da Cosac, porque o volume da Ediouro é quase intolerável para esta ex-revisora); a Infância do Coetzee e a do Graciliano. Aceitando sugestões: quem será o próximo?

Observação pertinente: Qual seria a mágica pra fazer os filmes da memória avançarem de um ponto em que sempre estacam? Por exemplo, o que acontece depois de quando eu derrubo a caixa de lápis de cor daquela menina mais velha e má do prezinho, o que vem depois de eu agachada catando os lápis espalhados entre as pernas que passam em pleno recreio? E a mágica para ampliar o recorte da imagem? O que há para além do chão de azulejos do quintal da casa da avó e de uma fatia de pulso branco e macio, quando a pulseirinha de ouro estoura e cai no chão? E para voltar àquela certeza que antecede o momento em que se instala a dúvida que detona tudo? Eram lápis de cor? Mas agora eu penso que antes estava certa de que eram canetinhas daquelas de corpo colorido e tampa branca. E agora já era: não eram lápis nem canetinhas, nem nunca mais serão; agora só podem ser dúvida. De modo que o que sobra de autêntico daquele dia é apenas humilhação.

Não ia falar, mas…

21/06/2010

Furar fila é muito feio. Mas estou certa de que quando eu e Lia (porra, comprometer os amigos é feio também) furamos aquela fila em Porto Alegre, no Fórum Social Mundial de 2005, para ver e ouvir Saramago e Galeano, fizemos bem. Aquele dia, ambos falaram sobre utopia…

496 páginas de Manoel!

30/03/2010

Lembro perfeitamente de como conheci Manoel de Barros.

Tinha 16 anos, passava uma temporada (férias? feriado?) em Gonçalves, sul de Minas. Vivia, com a cidade, um idílio adolescente — algo que se estendeu por uns bons dois ou três anos.

Pois bem. Suponho que havia terminado o(s) livro(s) que levara para a viagem, e estava de bobeira na sem-gracice do escritório-de-advocacia-e-contabilidade da família de uma amiga. Matando o tempo a tiros, quase. Lombadas e lombadas de livros e nenhum que me fizesse dizer suspirando “não é isso, mas… há de se sorver algo”. E eis que, sobre uma mesa, bato o olho n’O livro das ignorãças. Desconhecia Manoel por completo. Abri sem saber se encontraria auto-ajuda de limpar a bunda ou o quê. E veio um assombro confuso: “isto é… isto é absurdo! como nunca ouvi falar?!”. Desacreditei da minha capacidade de avaliação; se era tão bom, como nunca… nunca? Li e reli; pelos dois dias seguintes, até me reassegurar de que tinha algum discernimento literário. Esqueci de pedras mornas para deitar sob o sol, cachoeiras e o frio da serra cortando o rosto na noite. Ao mesmo tempo em que as formigas do quintal ganhavam sentidos inauditos.

(Me ficou, para sempre, a dúvida: o que aquele livro foi fazer lá, no meio de gente que lia pouco ou nada? Pelas mãos de quem? Um livro de tanta rareza… Eu criei esse livro?)

E então recebo a notícia de que me trazem, nesta quinta, as obras completas do Manoel de presente. (Suspiro.) Minha mãe continua me estragando à distância.