Archive for the ‘História’ Category

Pausa no recesso

12/05/2011

Pra dizer que eu tô apaixonada por esta foto (infelizmente em baixa resolução) do Julio Antonio Mella:

“Vem, Bahetá, com seu povo caminhar”

03/03/2011

Mulheres reunidas na aldeia Bahetá, nov. 2010

(…)

Bahetá, última falante da língua Pataxó Hã-Hãe, pereceu em uma epidemia de cólera, em 1992. Suas palavras, hoje, estão fixadas em uma cartilha com 120 termos. Diz-se que tinha mais de cem anos e era “cismada”; viveu todas as etapas da “conquista” do povo Pataxó Hã-Hã-Hãe.

O que hoje é a aldeia Bahetá, antes, chamava-se Caramuru – o posto de “atração” do SPI. Traziam os índios da mata para a sede, me conta dona Maura; Bahetá foi uma delas. Estamos ao lado da escola, onde antes se erguia a sede do posto, uma construção comprida, com grades para aprisionar os índios. Os que não morreram de sarampo foram ensinados a falar português. “Muito triste perder o idioma. Eles foi pegado no mato e judiado pra aprender português. Os pais tinham medo de ensinar [seu idioma]; fico triste de não saber”, dona Maura diz.

Com o domínio da língua, veio o aprendizado dos outros dotes da civilização. Quando “prontas”, as meninas – filhas e netas dos índios vindos do mato – tinham destinação certa. Dona Maura lembra de todas, pequenas e descalças, reunidas diante da sede do posto. “’Você olha as meninas que a gente tem, escolhe pra levar’. O chefe de posto dava [as meninas] pra quem vinha da cidade. Levavam pra criar, pra servir; muitas delas não voltavam. Cansei de ver muitas parentes minhas sendo levadas, pegadas pela madame pelo braço e colocada no carro. De Ilhéus, Itabuna, até do Rio de Janeiro. Saiu Jandira, Maria Nega, Nenzinha, Maria Preta. A última fui eu. É muito duro você ser criança, sair, ver a sua mãe chorando baixinho, sem poder fazer nada, porque o chefe de posto mandava. Eu chorava que nem desvalida porque sabia que ia ser desgarrada da saia da minha mãe. Eu tive que aprender tudo, pra tomar conta de uma criança.”

Dona Maura não sabe quanto tempo ficou em Itabuna. “Naquele tempo nós não contava anos.” Mas um dia acabou. “Dei meu dente na perna da patroa, arranquei pedaço. Quando eu cheguei, meu pai tava em cima de uma cama mprrendo, minha mãe fraquinha. Tava a Bahetá, Jorge, Dangi, Luzia, que foi matada [Luzia foi morta a facadas, pelo marido; o local de seu assassinato é conhecido como “morte sem vela”], Zequinha. Ficou tudo gravado na minha cabeça.”

(…)

Aqui, o relato completo, que escrevi a partir de uma visita realizada ano passado à aldeia Bahetá (território do povo Pataxó Hã-Hã-Hãe, no sul da Bahia): Vem, Bahetá, com seu povo caminhar. Confesso que é longo, mas ainda assim convido à leitura.

PS. Ao comentar meu texto, Sebastián Gerlic, um amigo que atua junto aos povos indígenas do Nordeste e que também estava em Bahetá, chamou a atenção pra um equívoco: “Dona Maura falou ‘Dona Quitéria Xucuru’ no discurso… mas, eu me aproximei curioso… e ela retificou… se referia a Dona Quitéria Pankararu (outra guerreira que desencarnou)…”. A informação já está correta no arquivo em anexo, mas fica aqui para quem porventura tenha lido antes da correção…

Ausências

19/08/2010

Há mais de um ano, vi algumas fotos da série “Ausencias”, do argentino Gustavo Germano, e confesso que chorei diante da tela do computador (me sinto bem patológica quando rio alto lendo ou quando choro diante do computador). Agora, reencontrei seu site (flanando no blogue do André Dahmer) e o nó na garganta. Como talvez nem todos conheçam, resolvi deixar aqui umas imagens e o site do projeto.

E não, as ausências não são resultado do tempo: são de um troço chamado ditadura.


“Ser indígena não é boa notícia”

25/06/2010

“No caso do Peru, ser indígena não é boa notícia; ser mulher, tampouco. Mas ser os dois é estar à margem de tudo.” Atualmente, Rosemary Thorp, do Centre for Research on Inequality, Human Security and Ethnicity, da Universidade de Oxford, desenvolve a hipótese de uma correlação entre desigualdade étnica e violência política no Peru. Para ela, o nexo se intensifica conforme se acumulam desigualdades – como no exemplo, em que etnia e gênero se congregam para uma dupla opressão.

Hoje, assisti a um painel com a presença de Rosemary e de sua colega Corinne Caumartin, que vem trabalhando a mesma hipótese para a Guatemala. O projeto desenvolvido por ambas, junto a outros três pesquisadores, abarca, ainda, a Bolívia.

Quem vem da serra é terrorista

Brevemente, Rosemary traçou um panorama sobre as instituições peruanas, as relações sociais e as escolhas econômicas, tendo sempre a desigualdade étnica como prisma. Também ao olhar para o interior dos movimentos populares reivindica a centralidade desse fator. Em estudo sobre o movimento em torno dos restaurantes populares em Lima, observou que as posições de liderança tendiam a ser ocupadas por mestiços, que apresentavam mais anos de estudo e maior trânsito no mundo branco, ao passo que as bases eram eminentemente indígenas. Com o passar do tempo, a clivagem se aprofundou, a ponto de comprometer o movimento.

Já em relação ao Sendero Luminoso, Rosemary avalia que, ainda que não se estivesse de um conflito de matriz étnica, as desigualdades entre brancos, mestiços e indígenas também desempenhavam seu papel. De um lado, pela sensível correlação entre etnia e grau de vulnerabilidade à violência. De outro, no aprofundamento de estereótipos já existentes ou na criação de novos. Um entrevistado lhe contou que, sendo indígena, no auge da guerrilha era-lhe quase impossível conseguir emprego na região costeira. “‘Quem vem da serra é terrorista’ – esse era um nexo fatal em termos de mercado de trabalho”, pontua Rosemary.

Para muitas mulheres indígenas, observa, a guerrilha e a repressão trouxeram um efeito inesperado. Com os deslocamentos forçados, famílias das serras tiveram de ganhar a vida nas cidades costeiras. Como pairava sobre os homens do altiplano a pecha de terroristas em potencial, muitas vezes coube às mulheres prover a família. Findo esse período de “excepcionalidade” nas relações familiares, muitas guardavam consigo a experiência de uma autonomia inédita, ainda que efêmera. Mas, Rosemary observa, a essa mudança quase “acidental” não se somaram políticas públicas específicas, de modo que seu potencial de transformação foi praticamente perdido.

Etnocídio e multiculturalismo neoliberal

Corinne nos fez visualizar o nexo entre desigualdade étnica e desigualdade de renda na Guatemala com muita facilidade: o mapa da esquerda indicava o percentual indígena em relação à população total de cada região; o da direita, a distribuição de renda ao longo do território. Eram desenhos praticamente coincidentes.

E então seguiu, em uma caracterização sombria e desesperançada do pequeno país. Uma elite pouco numerosa, mas poderosa e refratária a quaisquer medidas de redistribuição de renda; relações de trabalho profundamente exploratórias e uma divisão étnica do mercado de trabalho muito marcada; intensa concentração de terras e nenhuma perspectiva de reforma agrária.

Como herança, décadas de brutal repressão estatal. Estima-se que entre 200 mil a 250 mil pessoas morreram ou desapareceram durante a ditadura (a grande maioria entre 1978 e 1983). “Mais de 90% dos atos de violência foram cometidos por agentes de segurança pública”, observou Corinne. “Mais de 80% das vítimas foram indígenas.” A Comisión para el Esclarecimiento Histórico (CEH) guatemalteca, em seu relatório final, de 1999, concluiu que o exército foi responsável por atos de genocídio contra indígenas em ao menos quatro regiões do país.

Além disso, disse Corinne, a história do país desde o golpe apresenta muitos pontos de disputa no que diz respeito às diferenças étnicas. Quais as vinculações entre as populações indígenas e o movimento guerrilheiro? Como se deu a resistência indígena? De que modo eram tratadas, que papel cumpriam as diferenças étnicas nos projetos de nação dos setores que lutaram contra a ditadura?

Os dados acerca da presença indígena no Estado, apresentados por Corinne, dão conta de um crescimento mui tímido ao longo das últimas décadas. Anotei apenas três percentuais, relativos a 2008: dos ministros e vice-ministros, 6,8% eram indígenas; dos diplomatas, 8%; no tribunal eleitoral, somavam 7,7%. Isso em um país onde o percentual de indígenas é estimado entre 40 a 60% da população. No Congresso, por outro lado, o processo de paz não teve qualquer impacto sobre a presença de indígenas: desde a década de 1970, ela segue na casa dos 10%. A esfera em que mais se avançou, observou Corinne, foi o poder local – em 2003, os indígenas preenchiam 36% dos cargos. Mas, aqui também encontramos exemplificado o fenômeno da dupla desigualdade: dentre os alcaldes indígenas (desculpem, perdi o número absoluto e estou sem tempo para pesquisar agora), uma apenas era mulher.

Quem quer ir comigo à Guatemala?

Poderia continuar horas escrevendo sobre a Guatemala… Mas vou fazer melhor que isso:

1. Remeter ao trabalho de Corinne, “Racism, Violence, and Inequality: An Overview of the Guatemalan Case” (2005), ou ao mais recente “Gender and Ethnic Inequalities in Latin America: A Multidimensional Comparison of Bolivia, Guatemala and Peru” (2008), de Manuel Barron, pesquisador do mesmo grupo.

2. Sugerir que leiam um breve balanço da Anistia Internacional sobre os dez anos (que se cumpriram ano passado) da conclusão dos trabalhos da CEH.
Uma amostra: “En total, la CEH documentó 669 masacres, 626 de las cuales eran atribuibles a las fuerzas del Estado. Hasta la fecha, menos de cinco de estos casos de graves violaciones de derechos humanos han dado lugar a condenas en los tribunales guatemaltecos, y únicamente para militares de baja graduación. Ningún militar de alta graduación ni autoridad ha comparecido nunca ante la justicia por ordenar, planificar o llevar a cabo las violaciones de derechos humanos generalizadas y sistemáticas de las que fueron responsables”.

3. Indicar um texto que escrevi quando trabalhava na Campanha Lainoamericana pelo Direito à Educação: “Mujer indígena guatemalteca narra caso de discriminación del derecho a la educación”.

4. Intimar: leiam Miguel Ángel Asturias, leiam! Tudo vale a pena: sua tradução do Popol Vuh, o Leyendas de Guatemala, Hombres de Maiz… Mas não dá pra morrer sem ler Week-end na Guatemala

Para finalizar, anoto uma noção interessante trazida por Corinne: a Guatemala viveria hoje, como ideologia de Estado, um “multiculturalismo neoliberal”, em que os avanços se dão, muito mais, no campo do reconhecimento de identidades que de transformações estruturais. E, mesmo assim, são reduzidos: em um univeso de cerca de 20 grupos linguísticos distintos, o espanhol segue reinando como único idioma oficial.

Violência contra mulheres na política

E para terminar mesmo, compartilho uma informação que recebemos de Corinne: a Asociación de Concejales de Bolivia (Acobol) vem desenvolvendo um observatório sobre violência contra mulheres na política, registrando ameaças e agressões. Em boa matéria da Alai (recomendo deveras), leio que elas estão em campanha em favor da aprovação, pelo Congresso, da Ley contra el Acoso y la Violencia Política en Razón de Género!

Uma das denúncias: “La encerraron en una habitación, la golpearon y hasta la amenazaron con un arma de fuego para que firmase su renuncia al cargo político que ostentaba, por el simple hecho de ser mujer”. (…)

Nostalgia alheia

22/06/2010

Fixação por memórias: As minhas universidades, do Górki (nota: reler na edição da Cosac, porque o volume da Ediouro é quase intolerável para esta ex-revisora); a Infância do Coetzee e a do Graciliano. Aceitando sugestões: quem será o próximo?

Observação pertinente: Qual seria a mágica pra fazer os filmes da memória avançarem de um ponto em que sempre estacam? Por exemplo, o que acontece depois de quando eu derrubo a caixa de lápis de cor daquela menina mais velha e má do prezinho, o que vem depois de eu agachada catando os lápis espalhados entre as pernas que passam em pleno recreio? E a mágica para ampliar o recorte da imagem? O que há para além do chão de azulejos do quintal da casa da avó e de uma fatia de pulso branco e macio, quando a pulseirinha de ouro estoura e cai no chão? E para voltar àquela certeza que antecede o momento em que se instala a dúvida que detona tudo? Eram lápis de cor? Mas agora eu penso que antes estava certa de que eram canetinhas daquelas de corpo colorido e tampa branca. E agora já era: não eram lápis nem canetinhas, nem nunca mais serão; agora só podem ser dúvida. De modo que o que sobra de autêntico daquele dia é apenas humilhação.

Viajando no voo de São Paulo a Brasília

04/05/2010

Eu leio que houve, durante a Guerra do Paraguai, uma índia Xukuru da Serra do Ororobá (Pernambuco) que se alistou junto aos “voluntários da pátria”. De nome Maria Coragem, contavam os antigos. Havia os índios (e não índios, é claro) que se vestiam de mulher para escapar ao recrutamento, e havia essa Maria Coragem. Imagine o que seriam as histórias dessa mulher, imagine, só pra passar vontade, como eu estou passando.

“Cidade Livre”

31/03/2010

Quando me contaram, há pouco, que o Núcleo Bandeirante era conhecido como “Cidade Livre”, pensei numa explicação mais poética que uma zona franca. Mas, vá lá, a história da cidade-satélite é bem interessante.

À Niobe Xandó

23/02/2010

Morreu Niobe Xandó. Acabo de saber, com quatro dias de atraso, pela Folha, em uma nota de injustificáveis SETE linhas. Prioridades são prioridades. Pesco num caderninho o que escrevi depois de ver uma retrospectiva da Niobe na Pinacoteca.

“21 de maio de 2007

Pela manhã, Pinacoteca e café. Foram retratos de Versalhes, Niobe Xandó e fotografias do Peru.
(…)
Niobe Xandó é brilhante (penso em brilhante de luz, não no sentido por derivação). Dentre os quadros figurativos há auto-retratos com lindos traços verdes e números deliciosamente egóticos (Auto-retrato XXXVI). Santos deveras pagãos. Há flores que tomaram ayhuasca. E há as máscaras africanas, como ato de mediação: em parte, o lastro da referência no real; em parte, a autonomia dada no enxugamento dos traços. E há uns flertes com naïf e art brut – que um bom comentário na parede junto à porta fixa como comparações possíveis ainda que não aplicáveis dogmaticamente à sua trajetória.”

Nunca burilei essa anotação, mas me parece que ela ainda guarda o impacto do que vi.

Deixem os mortos em paz ou façam direito

21/02/2010

Mais um fim de semana com cinebiografia. Camille Claudel. Não suportaria sequer um minuto a mais de música grandiosa ou atuação canastrona. No fim, tive que olhar e reolhar fotos de algumas de suas esculturas geniais, para dissipar o ranço provocado pelo filme.

Retrato de Camille Claudel. Paris, sem autor e data.

Dois grandes

07/02/2010

Fim de semana de cinema parte dois: revendo cousas.

Eu entendo que, para a família, ver o Glauber pulando ensandecido pra pegar a melhor tomada da cara do Di, com seus (do segundo) dentes à mostra, no meio daquela florzada vermelha toda, deve ter sido doloroso, aviltante, isso tudo. Sério, não vou entrar nessa discussão.

Mas se eu tivesse que escolher minha “homenagem póstuma” (ui!), ia gostar de ser chamada de vagabunda (no sentido bom, da sociabilidade anticapitalista e genialidades em mesa de bar), de que o homenageador relembrasse os nossos porres juntos e a vadiagem, a sexualidade, a afetividade, tudo que não se diz sob o bom senso das “homenagens” de bom tom.