Archive for the ‘Deslumbramentos’ Category

Senegal: Ouakam em dois relances

13/02/2011

Assim como os vizinhos Ngor e Yoff, Ouakam é um antigo vilarejo lébou (uma das etnias senegalesas), hoje integrado a Dacar como um subúrbio residencial. Uma vez hospedada em Ngor, passava por ali várias vezes ao dia. Dada a incursão superficial, para falar de Ouakam sem ser leviana devo me ater a seus dois marcos mais, digamos, monumentais (custa encontrar um adjetivo para unir duas construções tão díspares, como se verá).

O primeiro – cronologicamente de fato, já que no instante em que se salta do avião não é mais possível evitá-lo – é o Monumento ao Renascimento Africano. O colossal amontoado de bronze exibe seu estilo duvidoso do alto de uma colina: um casal e uma criança, mirando o Atlântico. Inaugurado em abril do ano passado, foi desenhado pelo presidente Wade – que, em reconhecimento a seu engenho e arte, quer 35% dos lucros de visitação da estátua. Que visitação, não se sabe. Li em qualquer parte que a salinha na cabeça da figura masculina, único local onde há uma janela, comporta 15 pessoas; o elevador carrega de cinco a seis; e equipar a estátua com ar condicionado, para tornar seu interior suportável, não custaria pouco, definitivamente.

A obra, que arrebatou 27 milhões de dólares aos senegaleses, atraiu críticas dos muçulmanos (que tal erigir enormes representações humanas seminuas em um país majoritariamente islâmico?), dos cristãos (depois de Wade ter feito uma fala infeliz comparando-a a representações de Cristo), dos artistas senegaleses (e eu arriscaria dizer que não só deles, mas também de todos com um mínimo senso estético), da oposição a um egótico Wade… enfim, de muitos, incluindo aqueles que saíram às ruas no dia de sua inauguração, para contrapor a megalomania à carestia que enfrentam diariamente. A estátua não é a mais alta do mundo, como queria Wade, mas o presidente segue acalentando o desejo de que ela se torne uma das maravilhas universais e atraia turistas para o Senegal. Mais sobre Wade, falemos em outra parte. Ainda em Ouakam, passamos à Mesquita da Misericórdia.

Eu olho para as mesquitas com o fascínio da novidade conhecida (já esmiuçada à distância, enquanto se esperava – e se construía – o encontro). Se dez vezes passo pela costaneira elevada, em que à altura do mar desponta a mesquita de Ouakam, dez vezes colo as mãos e a testa na janela do carro (mesmo quando não literalmente) e arreganho os olhos. É um olhar que traga os minaretes, já que não quer extensão de detalhes, mas um ver intenso. Como consequência colateral, decoro seu verde plúmbeo e o vermelho, bem como o terraço de onde brotam as torres, torres contra o mar, contra o céu, contra a falésia (há que abrir mais os olhos: são três telas e ela se foi). Descubro que oculta ladrilhos; adivinho a vista de suas janelinhas para o mar borrado. Mesquita feita animação antiga, imagem se formando pela soma dos nacos que aparecem e somem entre as barras do guard rail. Sinto-me mais próxima da mesquita – em minha imaginação de quem desce a escadaria larga entre o asfalto e a beira-mar – que os turistas que desceram, pés amarrados ao carro, fotografaram-na (supostamente imaculada, excluídas minhas gradinhas borradas) e, sem sentirem ganas de tocá-la, seguiram satisfeitos para encherem (e enchem?) os olhos na próxima esquina.

Ainda volto ao Senegal, para adentrar as mesquitas e (tentar) entender as diferenças entre as várias irmandades muçulmanas. Mas também para ouvir o acento especial do wolof falado pelos lébous, para lhes perguntar se vieram mesmo, séculos atrás, da planície do Nilo, e entrever as reminiscências de suas crenças ancestrais, vivas sob a conversão ao Islã. Em resumo: para conhecer Ouakam, assim como Ngor e Yoff.

Toumani Diabaté e a kora

28/01/2011

A preparação para o Senegal…
Toumani Diabaté, na verdade, é maliano. Mas toca belamente a kora — um dos principais instrumentos tradicionais senegaleses.

Goiás Velho

07/01/2011

Continuando com a temporada de organização: fotografias de Goiás Velho tomadas em maio (em viagem com a Paula) e dezembro (com minha irmã): aqui.

Toma, um bicho psicodélico pra você.

Bicho | dez. 2010 | Por Daniela Alarcon

Umas fotos do Ceará

05/01/2011

Em maio passado, viajei a Fortim – cidade cearense à margem do rio Jaguaribe, a poucos quilômetros de seu encontro com o mar – para participar, pela primeira vez, de um encontro de pescadoras.

Lá, conheci mulheres oprimidas, de um lado, pelo avanço da aquicultura e outros males sobre a pesca artesanal. “Na nossa região, os fazendeiros colocam cerca elétrica no rio”, anotei. “Na nossa região, a gente não pode amarrar o barco na margem, porque a beira e o fundo do rio são do fazendeiro.” De outro, pelo machismo, que impede o reconhecimento de sua atuação na pesca. “A mulher vai ao INSS, declarar-se pescadora. ‘Deixa eu ver sua mão.’ O funcionário a manda embora, resmungando: ‘Pescadora de unha feita… tá certo’.”

Movida pelos relatos e discussões, escrevi um primeiro texto — valia-me do fato de estar sentada diante do rio para tentar embeber a escrita com algo do mangue, dunas e vento-ventooooooo da noite. Já em Brasília, vieram uma nota curta e um novo texto, sintetizando os principais debates travados em Fortim a respeito da implementação de políticas públicas para a pesca artesanal atentas para as questões de gênero.

Faço este “resgate” pois gostaria de convidá-los a olhar algumas fotografias que tomei durante a viagem e que só agora tive a decência de organizar. Além de participar do encontro, tive tempo de descer as vielas rumo ao rio, observar seu regime ao longo do dia, o vai-e-vem das jangadas, barcos sendo descarregados e o céu sempre mudando de cores. Também atendi ao convite de Dorinha, pescadora da vila de Fortim, que me levou a conhecer sua casa, sua família e seu cotidiano no mangue (aqui, linhas mal traçadas sobre Dorinha).

Do Fortim, deslizei para a vizinha Aracati – cidade mais entrada no Jaguaribe, que leva o mesmo nome do poético vento. Foram poucas horas aí, suficientes contudo para uma olhada no casario (tão bonito) e um pouco de bulicio na zona do mercado de peixe. Um azul de céu hipnotizante, com as nuvens sempre pinceladas pelo vento. Um ônibus depois, a praia de Canoa Quebrada; é fato que preferia ter estado aí uns quarenta anos atrás mas, indo agora, não deixei de enxergar como ela é bela, especialmente quando, finda a tarde, as falésias se doiram intensamente.

Antes de voltar a Brasília, muito caminhei e mergulhei no Pontal de Maceió e Canto da Barra, duas outras localidades de Fortim. Na ida ao Canto da Barra, vacilei e não fotografei os barcos ancorados na maré baixa; quando voltei, vinda do Pontal, encontrei-os já flutuando… Ainda assim, fiz uma ou outra foto. E dediquei um texto a este passeio, um pouco centrado nas afeições do Branco (o motorista de moto-táxi que me levou) para matizar uma discussão sobre especulação imobiliária.

As fotos (aqui), com sorte, talvez deixem ver os encantos de Fortim e Aracati.

Da esq. para a dir., fachada em Aracati, participante do encontro em Fortim, Canoa Quebrada e jangada na barra do rio Jaguaribe | maio 2010 | Por Daniela Alarcon

Para terminar, deixo-os com as palavras de ordem que aprendi junto às pescadoras:

No rio e no mar: pescador(a) na luta!
No açude e na barragem: pescando a liberdade!
Hidronegócio: resistir!
Cerca nas águas: derrubar

O aviãozinho

04/01/2011

Brasília vista do alto, maio 2010 | Por Daniela Alarcon

Meu canarinho, minha beija-flor

24/10/2010

Na Serra do Padeiro, foram muitos encantamentos. Um deles, seu Lírio, pajé Tupinambá. Minha manhã de sábado (o primeiro amanhecer na Serra) começou com uma canção delicada. Era seu Lírio na gaita:

Meu canarinho, minha beija-flor,
me dá notícia do meu grande amor,
que foi embora, nunca mais voltou,
meus canarinhos, minha beija-flor.

Seu Lírio | Aldeia Serra do Padeiro, Buerarema (BA), 9 out. 2010

No meio da chuva, a girar

28/09/2010

Noite passada, sonhei com a chuva tradicional — queria água, nada de precipitação de sapos ou peixes, como às vezes acontece por aí (e não só em Magnólia), e muito menos poeira. Enfim, foi o terceiro sonho com chuva no último mês; todos os colegas de trabalho que não são de Brasília têm sonhado também. Eu digo que esta situação extrema perturba a pessoa. E olha que eu viajei ao longo desses 125 dias de estiagem, encontrando chuva em Recife, na Raposa, São Paulo. Só que a seca na Brasília-ingrata vem bagunçando meu cérebro.

Mas, enfim, a cidade tem estado nublada desde domingo e o dia hoje amanheceu especialmente carregado. (É, porém, um nublado extremamente ensolarado — uma hora explico isso melhor, algo a ver com o mesmo sol de rachar mas por trás de uma espessa camada de fumacê, verdadeira estufa.)

Por volta das 16h, ventou loucamente e a energia da “repartição” caiu. (Hoje e outro dia — quando nossa rede caiu por conta de a seca ter provocado uma queimada natural no gramado do Congresso, atingindo cabos e afins — me deliciei com os pontos de fragilidade da nossa redoma tecnológica.) Pois bem, saímos todos à rua pra ver o toró (já tínhamos combinado que o primeiro aguaceiro seria recebido com banho de chuva — ainda que os brasilienses fiquem nos alertando para o fato de que ele virá muito sujo, cheio de fuligem, terra etc.). E aí começa… a voar poeira pra tudo quanto é lado, o Congresso se desvanece (e ele fica muito perto de nós), a Torre de TV some! Tempestade de poeira!

Bem bonito de ver, vento de orgia, olho como se atacado por um milhão de ciscos simultaneamente. E nada de água… Eu sempre fui de água e agora Brasília me faz ter a sede de uma multidão. Amanhã será dia?

De volta à Raposa Serra do Sol

26/09/2010

Aldeia Maturuca, Raposa Serra do Sol, 20 set. 2010

Porque eles não veriam a beleza

13/09/2010

“Sinceramente, o que a luta de classe tem a ver com isso?”, o diretor da fábrica de salsichas responde às perguntas inaudíveis da repórter. “Você ainda está usando um vocabulário do século 19”, ele se exaspera, a repreende, ele sabe a verdade. “Os dias de injustiça de Marx e Engels se acabaram.”

Três anos atrás, fui repreendida assim, só que de maneira jocosa e seguramente mais desrespeitosa. Porque o diretor da fábrica de salsichas encarava a jornalista e tinha voz; já eu tive essas palavras escritas às minhas costas. A reitoria da USP estava ocupada, um colega e eu entramos em uma das salas de aula para dar informes sobre a greve. Enquanto falávamos, o professor deu seu recado, giz sobre a lousa: “Como pensar o século 21 com uma cabeça do 19?”. Para este argumento — o chamemos assim — ele não teve voz de dizer, porque, ao dizer, se tem resposta. Para a truculência, recuperou a fala. Após escrever e se regozijar com as risadas da sala, interrompeu nossa frase, feito uma diva grotesca, gritando “acabou o tempo, podem sair”, e nos empurrou para a porta.

Ouvir o diretor de salsichas de “Tudo vai bem”, do Godard, é claro que me lembrou de pronto esse cretino que cruzou meu caminho certa tarde. Isso foi no começo do filme. Mas o diretor de salsichas, feito o professor covarde, é tão medíocre, tão medíocre, que vai sumindo conforme a história se acelera. O mundo é tão fascinante e cheio de sentidos para quem tem olhos de ver, que mesmo que os dois se utilizem de grande impostação de voz, ao final, deles sobram resíduos desprovidos de qualquer potência.

Não penso em esquecer de um nem de outro: não, há que se arranjar a eles um compartimento na memória, sob medida. Mas o grande espaço reservado àquilo que se tem de trazer à tona providencialmente, o espaço do grande preenchimento dos olhos, do sentir e do intelecto, é reservado a outros. No caso do filme, é claro que é para o monólogo da operária:

“O nome dele é Gilles. Nasceu em 17 de abril de 1951. Ele é aluno do Lycée Thiers. Gilles, dirão que você merecia morrer como um agitador. Eu, que lutei ao seu lado, não consigo encontrar nome mais bonito para lhe dar. Gilles, dirão que você não conhecia mais que sua família e a escola, e que você aprendeu sobre o mundo nos livros. Eu digo que seus livros te impulsionaram para a vida porque deles você aprendeu a desaprender. Gilles, em 3 de maio, às 4h, você uniu forças com a vida e continuou com sua luta à luz do dia. Gilles, hoje, 10 de junho, às 4h, você uniu forças com a história, e encontrou sua morte nos deixando para trás. Não chore, irmão. Vamos continuar!”

(Eles não veriam a beleza.)

Brasília-Canavieiras

23/08/2010

Dois meses atrás, estive em Canavieiras, para um encontro de pescadoras; antes de chegar, juntei umas impressões pelo caminho.

Brasília-Salvador-Ilhéus

Eu gosto de, ao pousar, ver as dunas parcialmente cobertas de verde, ao lado da pista. Desgosto de ouvir o aeroporto Dois de Julho ser anunciado como Luis Eduardo Magalhães. Em Ilhéus, parece que vamos pousar no rio, transbordante – lindo mangue. Uma efígie de cacau, patrocinada pelo Rotary, Welcome!, nos recebe no aeroporto Jorge Amado… Dispensável dizer que é um cacau empertigado, mas extemporâneo.

Ilhéus-Una

Casas de ripa, ao lado desses rios tão férteis, de sustento e de histórias; tempo nublado, maré alta, praias azul chumbo desbotado. E então estamos em Una. A Una da placa “Costa do Cacau” e do “Boa viagem” trilíngue, de Comandatuba, a minha Una Tupinambá. O município é arrastado, comprido; chegamos ao centro já quase no escuro…. Deixamos os postes e as gentes para trás, e então nosso farol ilumina duas mulheres, no acostamento, carregando latas na cabeça; as duas vêm em nossa direção, saídas da noite, saídas do fundo escuro do invisível de Una. Daquilo que está além dos (ainda que a eles submetido) empreendimentos turísticos. A lua cheia, encoberta. De novo nosso farol, um rapaz vem de bicicleta.

Una-Canavieiras

A lua parece de outro tempo. Mais tarde, terei lançado o primeiro olhar às construções fantasmáticas diante do cais de Canavieiras (restando três, duas ou uma parede apenas). Amanhã, conhecerei pescadoras como Pedrina ou Maria Lúcia. E, dias depois, penetrarei no mangue, deslizando sob a luz filtrada na promiscuidade de raízes; silenciosa (silenciosos eu, meus companheiros de viagem e o motor do barco, desligado); apanhada pela chuva fina.