Archive for the ‘Cinema’ Category

A Maria Schneider

03/02/2011

Só vi dois filmes com Maria Schneider. Mas já foi o bastante para ficar dias e dias com ela na cabeça.

Porque eles não veriam a beleza

13/09/2010

“Sinceramente, o que a luta de classe tem a ver com isso?”, o diretor da fábrica de salsichas responde às perguntas inaudíveis da repórter. “Você ainda está usando um vocabulário do século 19”, ele se exaspera, a repreende, ele sabe a verdade. “Os dias de injustiça de Marx e Engels se acabaram.”

Três anos atrás, fui repreendida assim, só que de maneira jocosa e seguramente mais desrespeitosa. Porque o diretor da fábrica de salsichas encarava a jornalista e tinha voz; já eu tive essas palavras escritas às minhas costas. A reitoria da USP estava ocupada, um colega e eu entramos em uma das salas de aula para dar informes sobre a greve. Enquanto falávamos, o professor deu seu recado, giz sobre a lousa: “Como pensar o século 21 com uma cabeça do 19?”. Para este argumento — o chamemos assim — ele não teve voz de dizer, porque, ao dizer, se tem resposta. Para a truculência, recuperou a fala. Após escrever e se regozijar com as risadas da sala, interrompeu nossa frase, feito uma diva grotesca, gritando “acabou o tempo, podem sair”, e nos empurrou para a porta.

Ouvir o diretor de salsichas de “Tudo vai bem”, do Godard, é claro que me lembrou de pronto esse cretino que cruzou meu caminho certa tarde. Isso foi no começo do filme. Mas o diretor de salsichas, feito o professor covarde, é tão medíocre, tão medíocre, que vai sumindo conforme a história se acelera. O mundo é tão fascinante e cheio de sentidos para quem tem olhos de ver, que mesmo que os dois se utilizem de grande impostação de voz, ao final, deles sobram resíduos desprovidos de qualquer potência.

Não penso em esquecer de um nem de outro: não, há que se arranjar a eles um compartimento na memória, sob medida. Mas o grande espaço reservado àquilo que se tem de trazer à tona providencialmente, o espaço do grande preenchimento dos olhos, do sentir e do intelecto, é reservado a outros. No caso do filme, é claro que é para o monólogo da operária:

“O nome dele é Gilles. Nasceu em 17 de abril de 1951. Ele é aluno do Lycée Thiers. Gilles, dirão que você merecia morrer como um agitador. Eu, que lutei ao seu lado, não consigo encontrar nome mais bonito para lhe dar. Gilles, dirão que você não conhecia mais que sua família e a escola, e que você aprendeu sobre o mundo nos livros. Eu digo que seus livros te impulsionaram para a vida porque deles você aprendeu a desaprender. Gilles, em 3 de maio, às 4h, você uniu forças com a vida e continuou com sua luta à luz do dia. Gilles, hoje, 10 de junho, às 4h, você uniu forças com a história, e encontrou sua morte nos deixando para trás. Não chore, irmão. Vamos continuar!”

(Eles não veriam a beleza.)

Claude Chabrol

12/09/2010

Poxa, o Chabrol morreu. Lembro o quão perturbada fiquei, dias, depois de ter visto Uma garota dividida em dois, seu último filme*. Parece a deixa pra fazer uma retrospectiva, inaugurando o sofá-novo-que-abraça.

* Português da terrinha, sempre estragando as surpresas; pras bandas de lá o título ficou Uma rapariga cortada em dois.

PS – “Bela Junie”

11/08/2010

Mas eu gostei do filme — faltou dizer isso. E, na trama secundária, encontro muito sentido.

Nota sobre “A Bela Junie”

11/08/2010

Por que, em tantos filmes, a menina indescritivelmente linda e taciturna é, à sua revelia, como uma peste que só pode desgraçar — geralmente, enlouquecer ou levar à morte — os homens que por ela caem? Feita para os olhos, como que predestinada à solidão.

(Fútil, mas não completamente: não consigo tomar a sério qualquer filme em que Louis Garrel leve um fora — como, aliás, já acontecera em Atrizes. Pode fazer mais ou menos sentido, na trama, mas nunca faz para mim.)

Entre raquetes

27/03/2010

Que eu gosto de Brasília — em que pese toda a merda –, já é um fato.

Para justificar, poderia citar, hum, as árvores frondosas que têm vagens no topo. O fora-de-lugar; seu verde gritante de ervilhas contra o sóbrio das folhas as mais tradicionais. (Quando eu era criança, todo jogo de lápis de cor, por mais simples que fosse, tinha ao menos dois verdes: o escuro, pras folhas das árvores, e o claro, pras coisas do chão. Com os últimos, desenhava a grama e, se buscasse algo, digamos, mais específico, também me serviria para vagens. Aqui, tudo misturado; dá graça, ver.)

Também as colunas de chuva. Que, desde que me mudei, deixaram a categoria de visagem estupenda rara para a de visagem estupenda cotidiana.

Mas que o único cinema dito “de arte” em funcionamento na cidade seja dentro do “privilegiado espaço” de uma academia de tênis (sim, academia de tênis) tem todo um simbolismo ao qual posso recorrer quando precisar explicar por que nunca vou me entregar a esta cidade.

“Fundada em 1972 pelo médico José Farani, a Academia de Tênis é um clube com 230 apartamentos, 22 quadras de tênis, uma casa de espetáculos, dez salas de cinema, três restaurantes, sauna e academia de ginástica. Por sua localização e estrutura privilegiadas, a cinco minutos da Esplanada dos Ministérios, a Academia de Tênis é tradicionalmente residência de ministros e autoridades do segundo escalão do governo federal. A proximidade com a sede do poder não impede que a Academia ofereça tranqüilidade, conforto e lazer aos seus hóspedes e visitantes”, diz o site do dito complexo.

A cidade poderia ter ao menos mais um cinema a passar filmes alternativos, independentes, o que seja. Em tudo oposto ao outro: é público, acessível de ônibus ou metrô, e vendia ingresso a preços populares. Chama-se Cine Brasília. Ganha as páginas dos jornais uma vez ao ano, quando ocorre o Festival de Brasília do Cinema Brasileiro. Fora dos holofotes, durante o resto dos dias, é vítima de um processo que acumula para o discurso de uma “necessária privatização”. Ainda estava aberto quando aqui cheguei, e foi uma das zonas de afeto que elegi na cidade. (Escrevi sobre ele, em um papel solto ora perdido, um texto de nome “Um cinema pra chamar de seu”.) Terminada a última edição do festival, foi fechado. E segue assim.

* Não sou tola para desvincular cinema e mercado cultural, para não enxergar o esnobismo e a masturbação intelectual do circuito de “arte”. E tampouco desconheço o triste destino dos cinemas do centro de São Paulo e de outras capitais. Mas, sabe, eu não quero cruzar com debutantes ou tenistas quando vou ao cinema.

Cine Brasília, de letreiro vazio | 17 mar. 2010 | Por Rita Andrade

(!)

23/03/2010

Só hoje assisti a Minha Adorável Lavanderia.

Deixem os mortos em paz ou façam direito

21/02/2010

Mais um fim de semana com cinebiografia. Camille Claudel. Não suportaria sequer um minuto a mais de música grandiosa ou atuação canastrona. No fim, tive que olhar e reolhar fotos de algumas de suas esculturas geniais, para dissipar o ranço provocado pelo filme.

Retrato de Camille Claudel. Paris, sem autor e data.

Dois grandes

07/02/2010

Fim de semana de cinema parte dois: revendo cousas.

Eu entendo que, para a família, ver o Glauber pulando ensandecido pra pegar a melhor tomada da cara do Di, com seus (do segundo) dentes à mostra, no meio daquela florzada vermelha toda, deve ter sido doloroso, aviltante, isso tudo. Sério, não vou entrar nessa discussão.

Mas se eu tivesse que escolher minha “homenagem póstuma” (ui!), ia gostar de ser chamada de vagabunda (no sentido bom, da sociabilidade anticapitalista e genialidades em mesa de bar), de que o homenageador relembrasse os nossos porres juntos e a vadiagem, a sexualidade, a afetividade, tudo que não se diz sob o bom senso das “homenagens” de bom tom.

A história de Adèle H.

07/02/2010

“É uma coisa incrível que uma mulher atravesse o mar, passe do Velho Mundo ao Novo para se unir a seu amante. É isso que farei.” (Do diário de Adèle, filha de Victor Hugo, antes da viagem que terminou em 40 anos de hospício.)

Adèle H. não é, mesmo, um dos melhores filmes do Truffaut. Mas saber que ele passou seis anos pesquisando sobre Adèle e que percebeu a relevância de sacar essa história das sombras só faz aumentar a minha admiração por ele.