Archive for the ‘Brasília-ingrata’ Category

O aviãozinho

04/01/2011

Brasília vista do alto, maio 2010 | Por Daniela Alarcon

Brasília-gentil

02/01/2011

Há alguns dias Brasília chove como São Paulo (dias inteiros úmidos, de luz branco-cinza, sem sol). A Misi entendeu bem o espírito do tempo.

Misi | Brasília, 02 jan. 2011 | Por Daniela Alarcon

Valeu, Brasília, desta feita você me entendeu e cooperou.

Depois da tempestade

29/09/2010

Fosse eu dona Weslian Roriz, pedia o desquite já.

No meio da chuva, a girar

28/09/2010

Noite passada, sonhei com a chuva tradicional — queria água, nada de precipitação de sapos ou peixes, como às vezes acontece por aí (e não só em Magnólia), e muito menos poeira. Enfim, foi o terceiro sonho com chuva no último mês; todos os colegas de trabalho que não são de Brasília têm sonhado também. Eu digo que esta situação extrema perturba a pessoa. E olha que eu viajei ao longo desses 125 dias de estiagem, encontrando chuva em Recife, na Raposa, São Paulo. Só que a seca na Brasília-ingrata vem bagunçando meu cérebro.

Mas, enfim, a cidade tem estado nublada desde domingo e o dia hoje amanheceu especialmente carregado. (É, porém, um nublado extremamente ensolarado — uma hora explico isso melhor, algo a ver com o mesmo sol de rachar mas por trás de uma espessa camada de fumacê, verdadeira estufa.)

Por volta das 16h, ventou loucamente e a energia da “repartição” caiu. (Hoje e outro dia — quando nossa rede caiu por conta de a seca ter provocado uma queimada natural no gramado do Congresso, atingindo cabos e afins — me deliciei com os pontos de fragilidade da nossa redoma tecnológica.) Pois bem, saímos todos à rua pra ver o toró (já tínhamos combinado que o primeiro aguaceiro seria recebido com banho de chuva — ainda que os brasilienses fiquem nos alertando para o fato de que ele virá muito sujo, cheio de fuligem, terra etc.). E aí começa… a voar poeira pra tudo quanto é lado, o Congresso se desvanece (e ele fica muito perto de nós), a Torre de TV some! Tempestade de poeira!

Bem bonito de ver, vento de orgia, olho como se atacado por um milhão de ciscos simultaneamente. E nada de água… Eu sempre fui de água e agora Brasília me faz ter a sede de uma multidão. Amanhã será dia?

O cabeleireiro bicha

08/09/2010

Eu sabia que não devia ir ao francês hoje.

Tema da lição: profissões de mulher x profissões homem. A abordagem do livro: progressista. A turma: um desastre.

Primeiro um me diz que jardineiro é profissão de homem, pois cavar a terra exige muito esforço. Outra afirma que nunca viu uma coveira mulher, que isso não existe. Uma terceira fala que o que não existe mesmo é mulher gari. Alto nível, minha gente.

E então alguém lembra das manicures, a conversa se encaminha pra cabeleireiros e a guria do meu lado solta um comentário homofóbico daqueles que eu não ouvia desde os anos 90. (Pois — até onde eu havia podido observar antes desse episódio — as piadas homofóbicas mudaram um tanto de roupagem desde o tempo do “cabeleireiro bicha” e da “caminhoneira sapatona”. Ou não?!)

Enfim, cansada e querendo minha cama, respondo que nem um trator; menos de um minuto “de relógio” depois, a menina se muda para a cadeira de todas a mais distante em relação à minha, sob a desculpa de terem ligado o ar condicionado virado pra ela. O vento bagunçando a franjinha cafona da moça — a gente se contenta com cada coisa.

Peepshow no Palácio do Planalto

07/09/2010

Finda a restauração do Palácio do Planalto, foram-se os tapumes e gradeados, vieram soldadinhos naquelas vestes patéticas. Não sei se é novidade ou não (já que quando cheguei, há quase um ano, a reforma já havia começado), mas surgiram de trás das tábuas um estacionamento no nível da rua e outro, subterrâneo.

Meu ponto de ônibus fica bem diante do estacionamento; assim, vendo-o apinhado, esperar pelo ônibus encostada no muro pareceu uma escolha óbvia.

Mas então chega uma recepcionista do Congresso, me puxa bruscamente pelo cotovelo, sem nada dizer, e começa a berrar senvergonhadesavergonhado para… o respiradouro do estacionamento subterrâneo. Colada no muro, eu não vi, há essa espécie de bueiro; lá embaixo, um faxineiro do Congresso caminha (deve fazê-lo todos os dias às 18h) de uma ponta a outra, deleitando-se com as calcinhas alheias.

O que me fascina na história, porém, é que o ponto inteiro começou a olhar para nós, exibidoras de calcinhas, com marcada desaprovação, por havermos nos revelado incapazes de esconder nossas vergonhas…

(Eu sei que isso tecnicamente não é um peepshow, mas não sabia que nome dar. Confesso que a segunda expressão que me veio à mente foi “bueiro indiscreto”, mas é o tipo de piada infame que só umas poucas pessoas — como a Paula, é claro — sustentam com valentia.)

Esplanada esmerdeada: ele passou por aqui

01/09/2010

Estou eu trabalhando quando, por volta das 11h da manhã, ouço cornetas. Elas vão e vêm, eu penso que é algum ensaio para a apoteose cívica que se aproxima: meu primeiro 7 de setembro (“data tão querida, foi a independência desta terra tão bonita” – nunca vou ser capaz de impedir que qualquer menção a 7 de setembro faça minha cabeça cantarolar automaticamente essa musiquinha que nos obrigaram a cantar na primeira série, na remota E.E.P.S.G. Valdivino Pereira de Castro; ah, a bandeira hasteada na quadra, os “inspetores de alunos”, as fitas de cetim branco no cabelo… como diabos eu sobrevivi a isso?!) na capital da República.

Não. Por volta de meio dia saímos para almoçar e lá estão os dragões da república, perfilados diante do nosso prédio (que fica num local estratégico para as pataquadas cívicas, bem na “entrada” da Esplanada para os que vêm das bandas das Embaixadas ou do Palácio da Alvorada). Eles estão em formação para receber nada mais nada menos que… o assassino Juan Manuel Santos, também conhecido como presidente da Colômbia.

Sirenes; batedores; cavaleiros erguem seus traseiros e abaixam ao mesmo tempo, em um movimento coordenado; uma Mercedes caquética de vidro fumê. E acabou. As salvas de canhão e a bandinha marcial só acontecem mais adiante, na frente do Palácio do Planalto.

E então caminhamos pela Esplanada deserta, estômagos roncando. Sol a pino, os soldadinhos rasos vão atrás dos dragões, com pás e carrinhos de mão, limpando a incrível quantidade de merda que se avolumou na Esplanada. Eu sou uma pessoa cândida, doce, nada dada às ironias e maledicências, mas a vida – a culpa é dela – às vezes te entrega as piadas sem que se as possa recusar… E, neste caso, impossível não dizer que a presença de Juan Manuel Santos foi denunciada pelo odor.

Obs. Eu fiquei a METROS do Juan Manuel Santos e não pude fazer NADA.

Entranhados

20/08/2010

Esta eu estou para escrever há tempos — e é dedicada àqueles que eventualmente ainda tenham dúvida sobre a força nefasta do agronegócio no Congresso.

Cotidianamente vejo carros de transmissão ao vivo estacionados ao lado da Câmara e do Senado, nada mais natural. São de diferentes emissoras, aparecem e reaparecem, em diferentes dias e horários. Mas o único que está lá TODAS as manhãs é o do Sistema Brasileiro do Agronegócio (SBA).

A aula de francês

04/08/2010

A aporrinhação de ter de passar 1h30 no mesmo recinto que 7 playboys de 17 anos (playboys brasilienses são piores que playboys em geral, vou concluindo) e toda a aventura de não perder o pé no sotaque do professor de Togo. Togo! Fascinante conhecer o primeiro togolês da minha vida, mas, de fato, por ora eu dispensaria o desafio linguístico extra.

versus

O flerte na biblioteca, baseado em Jean Genet e cumplicidade nerd-marginal. Desses que nascem para dar em nada, por óbvio, mas que a gente banca só pra se assegurar de que não perdemos a prática.

Minha aplicação da lei das compensações foi meio desbalanceada hoje. Nada contra a cena na biblioteca — tivemos um ótimo senso de oportunidade e bom ritmo –, mas EU NÃO AGUENTO 7 MOLEQUES BURROS COM CARA DE CAPITÃO DO TIME DE BASEBALL, 1H30 DE CONVERSA PARALELA E RISADAS ABOBALHADAS.

Maldição.

Fogo!

05/07/2010

Quando falavam que esta é época de incêndios em Brasília, eu não pensava que isso incluía carros — como o do meu vizinho, que acaba de derreter diante do prédio!
Agora meu apartamento cheira a coisas tóxicas e os olhos tão ardendo.
Brasília do inferno!
Ô, seu bombeiro, deixa eu dar um passeio num dos TRÊS carros que tão estacionados embaixo da minha janela, pra espantar o tédio?
(Ah, que bacana, tem FULIGEM na minha horta.)
Que me desculpem os brasilienses, mas tá difícil encarar esta cidade depois de um fim de semana ébrio e inebriante em São Paulo.
E, aproveitando o ensejo e a pegada aleatória da coisa toda: adiante, Uruguai, adiante, paisito!

PS. Só pra não deixar a coincidência passar despercebida: hoje pela manhã fui trabalhar lendo as várias (e, convenhamos, tediosas) páginas que o Górki dedica a incêndios n’O Vagabundo Original.