“Vem, Bahetá, com seu povo caminhar”

Mulheres reunidas na aldeia Bahetá, nov. 2010

(…)

Bahetá, última falante da língua Pataxó Hã-Hãe, pereceu em uma epidemia de cólera, em 1992. Suas palavras, hoje, estão fixadas em uma cartilha com 120 termos. Diz-se que tinha mais de cem anos e era “cismada”; viveu todas as etapas da “conquista” do povo Pataxó Hã-Hã-Hãe.

O que hoje é a aldeia Bahetá, antes, chamava-se Caramuru – o posto de “atração” do SPI. Traziam os índios da mata para a sede, me conta dona Maura; Bahetá foi uma delas. Estamos ao lado da escola, onde antes se erguia a sede do posto, uma construção comprida, com grades para aprisionar os índios. Os que não morreram de sarampo foram ensinados a falar português. “Muito triste perder o idioma. Eles foi pegado no mato e judiado pra aprender português. Os pais tinham medo de ensinar [seu idioma]; fico triste de não saber”, dona Maura diz.

Com o domínio da língua, veio o aprendizado dos outros dotes da civilização. Quando “prontas”, as meninas – filhas e netas dos índios vindos do mato – tinham destinação certa. Dona Maura lembra de todas, pequenas e descalças, reunidas diante da sede do posto. “’Você olha as meninas que a gente tem, escolhe pra levar’. O chefe de posto dava [as meninas] pra quem vinha da cidade. Levavam pra criar, pra servir; muitas delas não voltavam. Cansei de ver muitas parentes minhas sendo levadas, pegadas pela madame pelo braço e colocada no carro. De Ilhéus, Itabuna, até do Rio de Janeiro. Saiu Jandira, Maria Nega, Nenzinha, Maria Preta. A última fui eu. É muito duro você ser criança, sair, ver a sua mãe chorando baixinho, sem poder fazer nada, porque o chefe de posto mandava. Eu chorava que nem desvalida porque sabia que ia ser desgarrada da saia da minha mãe. Eu tive que aprender tudo, pra tomar conta de uma criança.”

Dona Maura não sabe quanto tempo ficou em Itabuna. “Naquele tempo nós não contava anos.” Mas um dia acabou. “Dei meu dente na perna da patroa, arranquei pedaço. Quando eu cheguei, meu pai tava em cima de uma cama mprrendo, minha mãe fraquinha. Tava a Bahetá, Jorge, Dangi, Luzia, que foi matada [Luzia foi morta a facadas, pelo marido; o local de seu assassinato é conhecido como “morte sem vela”], Zequinha. Ficou tudo gravado na minha cabeça.”

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Aqui, o relato completo, que escrevi a partir de uma visita realizada ano passado à aldeia Bahetá (território do povo Pataxó Hã-Hã-Hãe, no sul da Bahia): Vem, Bahetá, com seu povo caminhar. Confesso que é longo, mas ainda assim convido à leitura.

PS. Ao comentar meu texto, Sebastián Gerlic, um amigo que atua junto aos povos indígenas do Nordeste e que também estava em Bahetá, chamou a atenção pra um equívoco: “Dona Maura falou ‘Dona Quitéria Xucuru’ no discurso… mas, eu me aproximei curioso… e ela retificou… se referia a Dona Quitéria Pankararu (outra guerreira que desencarnou)…”. A informação já está correta no arquivo em anexo, mas fica aqui para quem porventura tenha lido antes da correção…

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