Senegal: Ouakam em dois relances

Assim como os vizinhos Ngor e Yoff, Ouakam é um antigo vilarejo lébou (uma das etnias senegalesas), hoje integrado a Dacar como um subúrbio residencial. Uma vez hospedada em Ngor, passava por ali várias vezes ao dia. Dada a incursão superficial, para falar de Ouakam sem ser leviana devo me ater a seus dois marcos mais, digamos, monumentais (custa encontrar um adjetivo para unir duas construções tão díspares, como se verá).

O primeiro – cronologicamente de fato, já que no instante em que se salta do avião não é mais possível evitá-lo – é o Monumento ao Renascimento Africano. O colossal amontoado de bronze exibe seu estilo duvidoso do alto de uma colina: um casal e uma criança, mirando o Atlântico. Inaugurado em abril do ano passado, foi desenhado pelo presidente Wade – que, em reconhecimento a seu engenho e arte, quer 35% dos lucros de visitação da estátua. Que visitação, não se sabe. Li em qualquer parte que a salinha na cabeça da figura masculina, único local onde há uma janela, comporta 15 pessoas; o elevador carrega de cinco a seis; e equipar a estátua com ar condicionado, para tornar seu interior suportável, não custaria pouco, definitivamente.

A obra, que arrebatou 27 milhões de dólares aos senegaleses, atraiu críticas dos muçulmanos (que tal erigir enormes representações humanas seminuas em um país majoritariamente islâmico?), dos cristãos (depois de Wade ter feito uma fala infeliz comparando-a a representações de Cristo), dos artistas senegaleses (e eu arriscaria dizer que não só deles, mas também de todos com um mínimo senso estético), da oposição a um egótico Wade… enfim, de muitos, incluindo aqueles que saíram às ruas no dia de sua inauguração, para contrapor a megalomania à carestia que enfrentam diariamente. A estátua não é a mais alta do mundo, como queria Wade, mas o presidente segue acalentando o desejo de que ela se torne uma das maravilhas universais e atraia turistas para o Senegal. Mais sobre Wade, falemos em outra parte. Ainda em Ouakam, passamos à Mesquita da Misericórdia.

Eu olho para as mesquitas com o fascínio da novidade conhecida (já esmiuçada à distância, enquanto se esperava – e se construía – o encontro). Se dez vezes passo pela costaneira elevada, em que à altura do mar desponta a mesquita de Ouakam, dez vezes colo as mãos e a testa na janela do carro (mesmo quando não literalmente) e arreganho os olhos. É um olhar que traga os minaretes, já que não quer extensão de detalhes, mas um ver intenso. Como consequência colateral, decoro seu verde plúmbeo e o vermelho, bem como o terraço de onde brotam as torres, torres contra o mar, contra o céu, contra a falésia (há que abrir mais os olhos: são três telas e ela se foi). Descubro que oculta ladrilhos; adivinho a vista de suas janelinhas para o mar borrado. Mesquita feita animação antiga, imagem se formando pela soma dos nacos que aparecem e somem entre as barras do guard rail. Sinto-me mais próxima da mesquita – em minha imaginação de quem desce a escadaria larga entre o asfalto e a beira-mar – que os turistas que desceram, pés amarrados ao carro, fotografaram-na (supostamente imaculada, excluídas minhas gradinhas borradas) e, sem sentirem ganas de tocá-la, seguiram satisfeitos para encherem (e enchem?) os olhos na próxima esquina.

Ainda volto ao Senegal, para adentrar as mesquitas e (tentar) entender as diferenças entre as várias irmandades muçulmanas. Mas também para ouvir o acento especial do wolof falado pelos lébous, para lhes perguntar se vieram mesmo, séculos atrás, da planície do Nilo, e entrever as reminiscências de suas crenças ancestrais, vivas sob a conversão ao Islã. Em resumo: para conhecer Ouakam, assim como Ngor e Yoff.

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4 Respostas to “Senegal: Ouakam em dois relances”

  1. João Fellet Says:

    Adorei as descrições, Dani! Há em Luanda uma construção tão controversa quanto esse Monumento ao Renascimento Africano. Mas em vez de um casal e uma criança mirando o Atlântico, ela tem o formato de uma enorme ogiva, que marca o horizonte de qualquer ponto que se olhe. É o mausoléu do Agostinho Neto, grande herói angolano, e foi construído por engenheiros norte-coreanos. Sobre a mesquita, fiquei muito curioso em conhecê-la! Sou absolutamente fascinado por mesquitas — e, quando em viagem pelo Sudão, Egito ou pela costa africana do Índico, quase toda muçulmana, me unia aos fiéis sempre que possível para entrar naqueles templos e explorá-los, sempre maravilhado. Tenho um amigo que já viajou por todo o Cáucaso só para conhecer mesquitas.
    beijos

    • Daniela Alarcon Says:

      Ei, João, obrigada por teu comentário.
      Acho que não mencionei no texto, mas o senegalês também foi construído por uma empresa norte-coreana!
      Eu fiquei muito enfeitiçada pelos minaretes… Quem sabe uma dia a gente não se encontra num país muçulmano qualquer? =)
      Beijão

  2. Amanda Says:

    Lindo texto, Dani. Aguardo ansiosa a continuação.

    Um beijo.

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