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A Rodolfo Walsh

28/12/2010

Desamparada ao terminar Essa mulher e outros contos, que reúne três livros (onze contos e uma entrevista) de Rodolfo Walsh.

É o primeiro livro de Walsh que leio. Há quatro anos, desde que dele tomei notícia, ensaio ter em mãos Operação Massacre. (Uma pobre alma que leciona na Letras, a qual eu importunava com pedidos de indicações de leituras hispanoamericanas, sugeriu-me o livro; antes de saber do que se tratava, já estava impressionada com a forma como essas duas palavras se equilibravam no título.)

Minha faculdade estava tão ocupada em se masturbar com A sangue frio numa das mãos, a ponto de não perder tempo com o livrinho hermano que o antecedeu — não que me importe com isso de quem veio antes, definitivamente, mas ficaria bem feliz de terem mencionado em sala de aula a existência de Operação Massacre sobre a Terra. Mas eu entendo: não seria chique trazer para perto de um dândi um latinoamericano que, por não proteger sua prosa da política, acabou metralhado numa rua. Se até o corpo dele sumiu… (Este ano a Companhia das Letras o editou na coleção de Jornalismo Literário; com o verniz recém-adquirido, quem sabe não entrou no currículo?)

Bem, lá se vai mais um ano sem que eu o tenha lido. (Amanhã: ida à livraria.) Mas agora já conheço sua Carta Abierta a la Junta Militar, datada de um dia antes de seu assassinato e desaparição (aqui, sua companheira relata a feitura da carta, que ele remeteu a alguns endereços na Argentina e em outros países — um dos destinatários foi meu jornal-fetiche, o Versus). E li, na tensão entre devorar e prolongar, esses onze contos impressionantes. Agora me sinto na obrigação moral de cutucar, a quem eu encontrar, com um imperativo de leitura.

*Só para registro: a publicação de ambos os livros no Brasil, este ano, não é uma reparação do silêncio voluntariamente levada a cabo pelo mercado editorial brasileiro; as traduções foram financiadas por um programa do governo argentino.

***

Depois que publiquei o texto acima, o editor de Essa mulher… comentou-o, retificando uma informação (quando eu falo das editoras brasileiras). Acho que convém não deixá-lo pouco visível, apenas lá nos comentários:

“(…) Da minha parte, como editor e cotradutor do livro, tenho só que fazer um pequeno reparo à sua ‘nota de rodapé’: houve, sim, um movimento voluntário no sentido de romper o silêncio que por tanto tempo isolou a obra de Rodolfo Walsh no Brasil.

A contribuição do governo argentino se deu por meio do Programa Sur de Apoio à Tradução, que apenas cobriu parte das despesas de tradução. Uma subvenção nos moldes da que é oferecida por boa parte dos países europeus (França, Portugal, Espanha, Alemanha, Holanda, Dinamarca, Romênia, Rep. Tcheca etc.) e por alguns países latino-americanos, como México e o próprio Brasil. Em todos eles, a escolha do título a traduzir, as características da edição e os profissionais a realizá-la são de inteira responsabilidade dos editores — no caso, da Editora 34”.

Rodolfo Walsh

O deputado nos defende dos silvícolas vende-pátria

28/12/2010

Vinte dias atrás, a Comissão de Relações Exteriores e de Defesa Nacional da Câmara Federal aprovou o PL-4791/2009, de autoria de Aldo Rebelo e Ibsen Pinheiro, que “submete ao Congresso Nacional a demarcação de terras tradicionalmente ocupadas pelos índios”.

Hoje, a decisão sobre a demarcação de terras indígenas cabe ao Executivo, como determina a Constituição Federal. Se, atualmente, os processos demarcatórios correm em ritmo lento, lento, desnecessário dizer que, fossem atribuição do Legislativo, teriam invariavelmente o mesmo fim: a não demarcação. Mais um rebento do profícuo engajamento do comunista (sic) na bancada ruralista.

Para a aprovação deste PL (inconstitucional), faltam ainda o aceite da Comissão de Direitos Humanos e Minorias e da Comissão de Constituição e Justiça e de Cidadania.

O que me leva a comentar essa notícia de há vinte dias é o fato de hoje eu ter tido o feliz impulso de visitar o site de Rebelo, para encontrar um destaque, na home, comemorando a aprovação. Ao lado da manchete, um detalhe da Dança dos Tapuias, do Eckhout. Outro dos destaques principais (são três, que se alternam) refere-se ao “medo, revolta e desespero [que] atingem população de cidade que poderá ficar sem 80% de suas terras devido à [sic] processos de demarcação”. Esta segunda manchete (repercutindo a Veja) desdobra-se em duas notas sobre o município maranhense de Amarante, acompanhadas de retratos de sitiantes – que podem, diz o site, perder suas terras – e fachadas de construções que submergeriam na “reserva” indígena.

Sem grandes elocubrações, só quero dizer que me é muito significativo o contraste entre as imagens que o deputado, por meio de sua assessoria de imprensa, escolheu para acompanhar as duas notícias. No caso do PL, uma pintura do século XVII, retratando os Tapuia (historicamente, a personificação do ”indio traidor da pátria”, os aliados dos holandeses, aqueles índios que não quiseram participar da grande festa da integração nacional). São nove índios nus, em posição altiva (e selvagem — por que não?), brandindo lanças e bordunas. Para Amarante, comovedoras fotografias de camponeses assombrados pelo espectro indígena.

O perigo é grande, mas o comunista (sic) está alerta. E em ação.

PS. Aos desocupados e/ou masoquistas: favor (re)visitar um artigo publicado por Rebelo à época do julgamento da Raposa Serra do Sol pelo STF, com especial atenção às personagens, imagens e ao léxico do deputado. Faço esta sugestão pois o próprio Rabelo informa em seu site que a “injustiça” cometida com a demarcação de Raposa foi sua inspiração para redigir o PL-4791/2009.