Archive for setembro \29\UTC 2010

Depois da tempestade

29/09/2010

Fosse eu dona Weslian Roriz, pedia o desquite já.

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No meio da chuva, a girar

28/09/2010

Noite passada, sonhei com a chuva tradicional — queria água, nada de precipitação de sapos ou peixes, como às vezes acontece por aí (e não só em Magnólia), e muito menos poeira. Enfim, foi o terceiro sonho com chuva no último mês; todos os colegas de trabalho que não são de Brasília têm sonhado também. Eu digo que esta situação extrema perturba a pessoa. E olha que eu viajei ao longo desses 125 dias de estiagem, encontrando chuva em Recife, na Raposa, São Paulo. Só que a seca na Brasília-ingrata vem bagunçando meu cérebro.

Mas, enfim, a cidade tem estado nublada desde domingo e o dia hoje amanheceu especialmente carregado. (É, porém, um nublado extremamente ensolarado — uma hora explico isso melhor, algo a ver com o mesmo sol de rachar mas por trás de uma espessa camada de fumacê, verdadeira estufa.)

Por volta das 16h, ventou loucamente e a energia da “repartição” caiu. (Hoje e outro dia — quando nossa rede caiu por conta de a seca ter provocado uma queimada natural no gramado do Congresso, atingindo cabos e afins — me deliciei com os pontos de fragilidade da nossa redoma tecnológica.) Pois bem, saímos todos à rua pra ver o toró (já tínhamos combinado que o primeiro aguaceiro seria recebido com banho de chuva — ainda que os brasilienses fiquem nos alertando para o fato de que ele virá muito sujo, cheio de fuligem, terra etc.). E aí começa… a voar poeira pra tudo quanto é lado, o Congresso se desvanece (e ele fica muito perto de nós), a Torre de TV some! Tempestade de poeira!

Bem bonito de ver, vento de orgia, olho como se atacado por um milhão de ciscos simultaneamente. E nada de água… Eu sempre fui de água e agora Brasília me faz ter a sede de uma multidão. Amanhã será dia?

De volta à Raposa Serra do Sol

26/09/2010

Aldeia Maturuca, Raposa Serra do Sol, 20 set. 2010

Porque eles não veriam a beleza

13/09/2010

“Sinceramente, o que a luta de classe tem a ver com isso?”, o diretor da fábrica de salsichas responde às perguntas inaudíveis da repórter. “Você ainda está usando um vocabulário do século 19”, ele se exaspera, a repreende, ele sabe a verdade. “Os dias de injustiça de Marx e Engels se acabaram.”

Três anos atrás, fui repreendida assim, só que de maneira jocosa e seguramente mais desrespeitosa. Porque o diretor da fábrica de salsichas encarava a jornalista e tinha voz; já eu tive essas palavras escritas às minhas costas. A reitoria da USP estava ocupada, um colega e eu entramos em uma das salas de aula para dar informes sobre a greve. Enquanto falávamos, o professor deu seu recado, giz sobre a lousa: “Como pensar o século 21 com uma cabeça do 19?”. Para este argumento — o chamemos assim — ele não teve voz de dizer, porque, ao dizer, se tem resposta. Para a truculência, recuperou a fala. Após escrever e se regozijar com as risadas da sala, interrompeu nossa frase, feito uma diva grotesca, gritando “acabou o tempo, podem sair”, e nos empurrou para a porta.

Ouvir o diretor de salsichas de “Tudo vai bem”, do Godard, é claro que me lembrou de pronto esse cretino que cruzou meu caminho certa tarde. Isso foi no começo do filme. Mas o diretor de salsichas, feito o professor covarde, é tão medíocre, tão medíocre, que vai sumindo conforme a história se acelera. O mundo é tão fascinante e cheio de sentidos para quem tem olhos de ver, que mesmo que os dois se utilizem de grande impostação de voz, ao final, deles sobram resíduos desprovidos de qualquer potência.

Não penso em esquecer de um nem de outro: não, há que se arranjar a eles um compartimento na memória, sob medida. Mas o grande espaço reservado àquilo que se tem de trazer à tona providencialmente, o espaço do grande preenchimento dos olhos, do sentir e do intelecto, é reservado a outros. No caso do filme, é claro que é para o monólogo da operária:

“O nome dele é Gilles. Nasceu em 17 de abril de 1951. Ele é aluno do Lycée Thiers. Gilles, dirão que você merecia morrer como um agitador. Eu, que lutei ao seu lado, não consigo encontrar nome mais bonito para lhe dar. Gilles, dirão que você não conhecia mais que sua família e a escola, e que você aprendeu sobre o mundo nos livros. Eu digo que seus livros te impulsionaram para a vida porque deles você aprendeu a desaprender. Gilles, em 3 de maio, às 4h, você uniu forças com a vida e continuou com sua luta à luz do dia. Gilles, hoje, 10 de junho, às 4h, você uniu forças com a história, e encontrou sua morte nos deixando para trás. Não chore, irmão. Vamos continuar!”

(Eles não veriam a beleza.)

Claude Chabrol

12/09/2010

Poxa, o Chabrol morreu. Lembro o quão perturbada fiquei, dias, depois de ter visto Uma garota dividida em dois, seu último filme*. Parece a deixa pra fazer uma retrospectiva, inaugurando o sofá-novo-que-abraça.

* Português da terrinha, sempre estragando as surpresas; pras bandas de lá o título ficou Uma rapariga cortada em dois.

Travaux champetres

10/09/2010

Ontem eu recebi uma correspondência de Burkina Faso (nada de excitante, apenas relatório de viagem e comprovantes de embarque da representante de uma organização que participou do nosso Seminário Internacional sobre Políticas Públicas para Mulheres Rurais). Não resisti: tive que escanear os selos. Olhem quem aparece na colheita do milho em primeiro plano!

O cabeleireiro bicha

08/09/2010

Eu sabia que não devia ir ao francês hoje.

Tema da lição: profissões de mulher x profissões homem. A abordagem do livro: progressista. A turma: um desastre.

Primeiro um me diz que jardineiro é profissão de homem, pois cavar a terra exige muito esforço. Outra afirma que nunca viu uma coveira mulher, que isso não existe. Uma terceira fala que o que não existe mesmo é mulher gari. Alto nível, minha gente.

E então alguém lembra das manicures, a conversa se encaminha pra cabeleireiros e a guria do meu lado solta um comentário homofóbico daqueles que eu não ouvia desde os anos 90. (Pois — até onde eu havia podido observar antes desse episódio — as piadas homofóbicas mudaram um tanto de roupagem desde o tempo do “cabeleireiro bicha” e da “caminhoneira sapatona”. Ou não?!)

Enfim, cansada e querendo minha cama, respondo que nem um trator; menos de um minuto “de relógio” depois, a menina se muda para a cadeira de todas a mais distante em relação à minha, sob a desculpa de terem ligado o ar condicionado virado pra ela. O vento bagunçando a franjinha cafona da moça — a gente se contenta com cada coisa.

Peepshow no Palácio do Planalto

07/09/2010

Finda a restauração do Palácio do Planalto, foram-se os tapumes e gradeados, vieram soldadinhos naquelas vestes patéticas. Não sei se é novidade ou não (já que quando cheguei, há quase um ano, a reforma já havia começado), mas surgiram de trás das tábuas um estacionamento no nível da rua e outro, subterrâneo.

Meu ponto de ônibus fica bem diante do estacionamento; assim, vendo-o apinhado, esperar pelo ônibus encostada no muro pareceu uma escolha óbvia.

Mas então chega uma recepcionista do Congresso, me puxa bruscamente pelo cotovelo, sem nada dizer, e começa a berrar senvergonhadesavergonhado para… o respiradouro do estacionamento subterrâneo. Colada no muro, eu não vi, há essa espécie de bueiro; lá embaixo, um faxineiro do Congresso caminha (deve fazê-lo todos os dias às 18h) de uma ponta a outra, deleitando-se com as calcinhas alheias.

O que me fascina na história, porém, é que o ponto inteiro começou a olhar para nós, exibidoras de calcinhas, com marcada desaprovação, por havermos nos revelado incapazes de esconder nossas vergonhas…

(Eu sei que isso tecnicamente não é um peepshow, mas não sabia que nome dar. Confesso que a segunda expressão que me veio à mente foi “bueiro indiscreto”, mas é o tipo de piada infame que só umas poucas pessoas — como a Paula, é claro — sustentam com valentia.)

Usina ameaça pescadores/as

01/09/2010

“Aqui é um lugar de barriga cheia. Tudo o que você procurar aqui no mangue tem, pra você alimentar sua barriga, seu espirito e sua alma. Se a gente for pra rua a gente vai fazer o que? Morrer de fome? Muitos dos que sairam daqui estão passando fome hoje, vivem de barriga vazia. Eles só viviam bem dentro dos manguezais.” (Maria Nazareth, pescadora)

Nas Ilhas de Sirinhaém, Pernambuco, pescadores e pescadoras estão ameaçados de serem expulsos de suas terras. A comunidade defende a criação de uma Reserva Extrativista, que garanta condições para o exercício de seu modo de vida e para a preservação do ambiente. Até aqui, a Justiça está do lado da Usina Trapiche — ainda que as ilhas sejam propriedade da União.

Mais, aqui.

Esplanada esmerdeada: ele passou por aqui

01/09/2010

Estou eu trabalhando quando, por volta das 11h da manhã, ouço cornetas. Elas vão e vêm, eu penso que é algum ensaio para a apoteose cívica que se aproxima: meu primeiro 7 de setembro (“data tão querida, foi a independência desta terra tão bonita” – nunca vou ser capaz de impedir que qualquer menção a 7 de setembro faça minha cabeça cantarolar automaticamente essa musiquinha que nos obrigaram a cantar na primeira série, na remota E.E.P.S.G. Valdivino Pereira de Castro; ah, a bandeira hasteada na quadra, os “inspetores de alunos”, as fitas de cetim branco no cabelo… como diabos eu sobrevivi a isso?!) na capital da República.

Não. Por volta de meio dia saímos para almoçar e lá estão os dragões da república, perfilados diante do nosso prédio (que fica num local estratégico para as pataquadas cívicas, bem na “entrada” da Esplanada para os que vêm das bandas das Embaixadas ou do Palácio da Alvorada). Eles estão em formação para receber nada mais nada menos que… o assassino Juan Manuel Santos, também conhecido como presidente da Colômbia.

Sirenes; batedores; cavaleiros erguem seus traseiros e abaixam ao mesmo tempo, em um movimento coordenado; uma Mercedes caquética de vidro fumê. E acabou. As salvas de canhão e a bandinha marcial só acontecem mais adiante, na frente do Palácio do Planalto.

E então caminhamos pela Esplanada deserta, estômagos roncando. Sol a pino, os soldadinhos rasos vão atrás dos dragões, com pás e carrinhos de mão, limpando a incrível quantidade de merda que se avolumou na Esplanada. Eu sou uma pessoa cândida, doce, nada dada às ironias e maledicências, mas a vida – a culpa é dela – às vezes te entrega as piadas sem que se as possa recusar… E, neste caso, impossível não dizer que a presença de Juan Manuel Santos foi denunciada pelo odor.

Obs. Eu fiquei a METROS do Juan Manuel Santos e não pude fazer NADA.