Archive for agosto \23\UTC 2010

Brasília-Canavieiras

23/08/2010

Dois meses atrás, estive em Canavieiras, para um encontro de pescadoras; antes de chegar, juntei umas impressões pelo caminho.

Brasília-Salvador-Ilhéus

Eu gosto de, ao pousar, ver as dunas parcialmente cobertas de verde, ao lado da pista. Desgosto de ouvir o aeroporto Dois de Julho ser anunciado como Luis Eduardo Magalhães. Em Ilhéus, parece que vamos pousar no rio, transbordante – lindo mangue. Uma efígie de cacau, patrocinada pelo Rotary, Welcome!, nos recebe no aeroporto Jorge Amado… Dispensável dizer que é um cacau empertigado, mas extemporâneo.

Ilhéus-Una

Casas de ripa, ao lado desses rios tão férteis, de sustento e de histórias; tempo nublado, maré alta, praias azul chumbo desbotado. E então estamos em Una. A Una da placa “Costa do Cacau” e do “Boa viagem” trilíngue, de Comandatuba, a minha Una Tupinambá. O município é arrastado, comprido; chegamos ao centro já quase no escuro…. Deixamos os postes e as gentes para trás, e então nosso farol ilumina duas mulheres, no acostamento, carregando latas na cabeça; as duas vêm em nossa direção, saídas da noite, saídas do fundo escuro do invisível de Una. Daquilo que está além dos (ainda que a eles submetido) empreendimentos turísticos. A lua cheia, encoberta. De novo nosso farol, um rapaz vem de bicicleta.

Una-Canavieiras

A lua parece de outro tempo. Mais tarde, terei lançado o primeiro olhar às construções fantasmáticas diante do cais de Canavieiras (restando três, duas ou uma parede apenas). Amanhã, conhecerei pescadoras como Pedrina ou Maria Lúcia. E, dias depois, penetrarei no mangue, deslizando sob a luz filtrada na promiscuidade de raízes; silenciosa (silenciosos eu, meus companheiros de viagem e o motor do barco, desligado); apanhada pela chuva fina.

Um afago em Brasília

21/08/2010

Assim é meu caminho todos os dias, na volta para casa.

Esplanada. Brasília, 19 ago. 2010

Olhos D’Água

20/08/2010

Em junho, aceitei o convite de uma amiga que conhecera dois meses antes, em Raposa Serra do Sol. Fui parar em Olhos D’Água, distrito de Alexânia, Goiás.

A uma hora de Brasília; a anos-luz de Brasília. Olhos D’Água é encantada.

Tem céu estrelado, pamonha, café com leite, fogão à lenha, fogueira, banho de rio, barulho da noite, frio do entardecer, bichinhos, silêncio…

As fotos não alcançam, mas dão uma pista.

“Produção, sim; demarcação, não.”

20/08/2010

“As nossas feridas continuam sangrando. Os descendentes dos invasores continuam nos considerando empecilhos para seus planos de enriquecimento, por meio da usurpação das nossas terras e dos recursos nelas existentes: naturais, minerais e hídricos.” (Carta Pública: Pelo direito a viver bem em nossas terras, VII Acampamento Terra Livre)

Chegou ao fim a última edição do Acampamento Terra Livre, realizado no Mato Grosso do Sul entre os dias 16 e 19 de agosto. A Carta Pública consensuada no Acampamento, além de sintetizar a situação vivida pelos povos indígenas no Brasil, elenca 38 demandas, concernentes às terras indígenas, aos grandes empreendimentos de “desenvolvimento” e seus impactos, à saúde e educação indígena, bem como à reestruturação da Funai.

Realizar o Acampamento em Campo Grande teve por objetivo denunciar a violência imposta aos povos indígenas do estado. Atualmente, “68 mil indígenas ocupam 0,5% do território do Estado e só na Terra Indígena de Dourados, a taxa de homicídio é de 140 por 100 mil habitantes, ou seja, 14 vezes superior ao índice de alerta e superior a mortalidade em países em estado de guerra civil, como o Iraque”.

O documento menciona ainda as campanhas anti-indígenas promovidas pelo agronegócio no estado, “através da difusão de slogans como: ‘produção sim, demarcação não'”.

Vale a pena dedicar alguns minutos à leitura da Carta Pública!

Entranhados

20/08/2010

Esta eu estou para escrever há tempos — e é dedicada àqueles que eventualmente ainda tenham dúvida sobre a força nefasta do agronegócio no Congresso.

Cotidianamente vejo carros de transmissão ao vivo estacionados ao lado da Câmara e do Senado, nada mais natural. São de diferentes emissoras, aparecem e reaparecem, em diferentes dias e horários. Mas o único que está lá TODAS as manhãs é o do Sistema Brasileiro do Agronegócio (SBA).

Ausências

19/08/2010

Há mais de um ano, vi algumas fotos da série “Ausencias”, do argentino Gustavo Germano, e confesso que chorei diante da tela do computador (me sinto bem patológica quando rio alto lendo ou quando choro diante do computador). Agora, reencontrei seu site (flanando no blogue do André Dahmer) e o nó na garganta. Como talvez nem todos conheçam, resolvi deixar aqui umas imagens e o site do projeto.

E não, as ausências não são resultado do tempo: são de um troço chamado ditadura.


Tupinambá de Olivença

19/08/2010

Os Tupinambá de Olivença ganharam verbete na enciclopédia Povos Indígenas no Brasil, do Instituto Socioambiental (ISA). Aqui. Ainda não li, mas já fico muito feliz de saber que ele existe! Os “novos canibais” da Veja são “índios de verdade”, olha só.

Miseta…

18/08/2010

A Misi tem o mesmo modus operandi. A única diferença é que, quando ela começa a arrancar pedaços, não se distrai com eles — morde sem parar.

Boas mulheres não herdam terra

18/08/2010

Muitas mulheres indianas são agricultoras. Na verdade, cada vez mais são elas que trabalham no campo, já que, com a desvalorização das atividades rurais, os homens têm migrado para outros setores.

Algumas nunca percorrem o caminho entre a roça e o mercado mais próximo, onde poderiam vender sua produção. Ou não têm tempo (as tarefas domésticas) ou são impedidas (por si ou por outrem) devido à “vergonha” representada pela exposição em espaços públicos.

Umas poucas, contudo, chegam aos espaços de comercialização. Passam a manhã sem vender nada — sabendo que elas têm de estar em casa antes do cair da noite (para cuidar da casa, dos homens, dos filhos), os compradores esperam o momento certo, quando podem oferecer o preço mais baixo, quando elas necessariamente têm de aceitar.

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Claro que a descrição acima, um tanto livre, não dá conta de particularidades e nem aprofunda a questão. Mas, segundo a pesquisadora indiana Nytia Rao (que conheci no Seminário Internacional Políticas Públicas para as Mulheres Rurais), ela é representativa das limitações que vivem muitas e muitas camponesas indianas.

Cada vez mais presentes no trabalho rural, seguem alijadas dos recursos (para ficar em um dado: apenas 10% dos proprietários de terras são mulheres, observa Nytia, percentual praticamente inalterado nos últimos vinte anos).

Ainda que a Constituição garanta às mulheres os mesmos direitos fundamentais dos homens, Nytia lembra o peso que o direito privado (em especial, os testamentos) e o religioso exercem sobre o acesso à propriedade da terra.

Tome-se o Hindu Succession Act (1956), por exemplo, que legisla sobre a herança entre os hindus. Foi apenas em 2005 que uma emenda passou a garantir direitos iguais a homens e mulheres.

Para terminar… Nytia é autora de um livro, editado em 2008, que parece bem interessante (mas que provavelmente acabarei não lendo, já que o tempo anda curto). Se alguém quiser ler e me contar…: Good women do not inherit land: Politics of land and gender in India [Boas mulheres não herdam terra: Políticas de terras e gênero na Índia].

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Da “série” sobre o Seminário Internacional Políticas Públicas para Mulheres Rurais, que aconteceu de 2 a 6 de agosto em Brasília, reunindo representantes de 23 países da América Latina, Ásia e África:

1. Um recado do Chile (13 ago. 2010)
2. Reflexões a partir de Cuetzalan (17 ago. 2010)

Brasília, São Paulo

17/08/2010

Aeroporto ao pôr-do-sol. Brasília, 13 ago. 2010.

Rebouças. São Paulo, 15 ago. 2010.