Archive for junho \29\UTC 2010

Tres veces mayor

29/06/2010

“En Guatemala, las mujeres indígenas mueren en el embarazo o dando a luz en un porcentaje tres veces mayor que las mujeres no indígenas.”

Um mês depois, consegui ler os boletins de maio do Noticias Aliadas… Fica a sugestão: “Comadronas indígenas luchan por derechos reproductivos”, de Louisa Reynolds. Mulheres morrendo no parto ou em decorrência dele pois os médicos não falam seu idioma — que tal?

Iemanjá

29/06/2010

No cais | Canavieiras, BA, 27 jun. 2010 | Por Daniela Alarcon

Vamo lá: “I don’t want to stay here, I want to go back to Bahia…”.

“Ser indígena não é boa notícia”

25/06/2010

“No caso do Peru, ser indígena não é boa notícia; ser mulher, tampouco. Mas ser os dois é estar à margem de tudo.” Atualmente, Rosemary Thorp, do Centre for Research on Inequality, Human Security and Ethnicity, da Universidade de Oxford, desenvolve a hipótese de uma correlação entre desigualdade étnica e violência política no Peru. Para ela, o nexo se intensifica conforme se acumulam desigualdades – como no exemplo, em que etnia e gênero se congregam para uma dupla opressão.

Hoje, assisti a um painel com a presença de Rosemary e de sua colega Corinne Caumartin, que vem trabalhando a mesma hipótese para a Guatemala. O projeto desenvolvido por ambas, junto a outros três pesquisadores, abarca, ainda, a Bolívia.

Quem vem da serra é terrorista

Brevemente, Rosemary traçou um panorama sobre as instituições peruanas, as relações sociais e as escolhas econômicas, tendo sempre a desigualdade étnica como prisma. Também ao olhar para o interior dos movimentos populares reivindica a centralidade desse fator. Em estudo sobre o movimento em torno dos restaurantes populares em Lima, observou que as posições de liderança tendiam a ser ocupadas por mestiços, que apresentavam mais anos de estudo e maior trânsito no mundo branco, ao passo que as bases eram eminentemente indígenas. Com o passar do tempo, a clivagem se aprofundou, a ponto de comprometer o movimento.

Já em relação ao Sendero Luminoso, Rosemary avalia que, ainda que não se estivesse de um conflito de matriz étnica, as desigualdades entre brancos, mestiços e indígenas também desempenhavam seu papel. De um lado, pela sensível correlação entre etnia e grau de vulnerabilidade à violência. De outro, no aprofundamento de estereótipos já existentes ou na criação de novos. Um entrevistado lhe contou que, sendo indígena, no auge da guerrilha era-lhe quase impossível conseguir emprego na região costeira. “‘Quem vem da serra é terrorista’ – esse era um nexo fatal em termos de mercado de trabalho”, pontua Rosemary.

Para muitas mulheres indígenas, observa, a guerrilha e a repressão trouxeram um efeito inesperado. Com os deslocamentos forçados, famílias das serras tiveram de ganhar a vida nas cidades costeiras. Como pairava sobre os homens do altiplano a pecha de terroristas em potencial, muitas vezes coube às mulheres prover a família. Findo esse período de “excepcionalidade” nas relações familiares, muitas guardavam consigo a experiência de uma autonomia inédita, ainda que efêmera. Mas, Rosemary observa, a essa mudança quase “acidental” não se somaram políticas públicas específicas, de modo que seu potencial de transformação foi praticamente perdido.

Etnocídio e multiculturalismo neoliberal

Corinne nos fez visualizar o nexo entre desigualdade étnica e desigualdade de renda na Guatemala com muita facilidade: o mapa da esquerda indicava o percentual indígena em relação à população total de cada região; o da direita, a distribuição de renda ao longo do território. Eram desenhos praticamente coincidentes.

E então seguiu, em uma caracterização sombria e desesperançada do pequeno país. Uma elite pouco numerosa, mas poderosa e refratária a quaisquer medidas de redistribuição de renda; relações de trabalho profundamente exploratórias e uma divisão étnica do mercado de trabalho muito marcada; intensa concentração de terras e nenhuma perspectiva de reforma agrária.

Como herança, décadas de brutal repressão estatal. Estima-se que entre 200 mil a 250 mil pessoas morreram ou desapareceram durante a ditadura (a grande maioria entre 1978 e 1983). “Mais de 90% dos atos de violência foram cometidos por agentes de segurança pública”, observou Corinne. “Mais de 80% das vítimas foram indígenas.” A Comisión para el Esclarecimiento Histórico (CEH) guatemalteca, em seu relatório final, de 1999, concluiu que o exército foi responsável por atos de genocídio contra indígenas em ao menos quatro regiões do país.

Além disso, disse Corinne, a história do país desde o golpe apresenta muitos pontos de disputa no que diz respeito às diferenças étnicas. Quais as vinculações entre as populações indígenas e o movimento guerrilheiro? Como se deu a resistência indígena? De que modo eram tratadas, que papel cumpriam as diferenças étnicas nos projetos de nação dos setores que lutaram contra a ditadura?

Os dados acerca da presença indígena no Estado, apresentados por Corinne, dão conta de um crescimento mui tímido ao longo das últimas décadas. Anotei apenas três percentuais, relativos a 2008: dos ministros e vice-ministros, 6,8% eram indígenas; dos diplomatas, 8%; no tribunal eleitoral, somavam 7,7%. Isso em um país onde o percentual de indígenas é estimado entre 40 a 60% da população. No Congresso, por outro lado, o processo de paz não teve qualquer impacto sobre a presença de indígenas: desde a década de 1970, ela segue na casa dos 10%. A esfera em que mais se avançou, observou Corinne, foi o poder local – em 2003, os indígenas preenchiam 36% dos cargos. Mas, aqui também encontramos exemplificado o fenômeno da dupla desigualdade: dentre os alcaldes indígenas (desculpem, perdi o número absoluto e estou sem tempo para pesquisar agora), uma apenas era mulher.

Quem quer ir comigo à Guatemala?

Poderia continuar horas escrevendo sobre a Guatemala… Mas vou fazer melhor que isso:

1. Remeter ao trabalho de Corinne, “Racism, Violence, and Inequality: An Overview of the Guatemalan Case” (2005), ou ao mais recente “Gender and Ethnic Inequalities in Latin America: A Multidimensional Comparison of Bolivia, Guatemala and Peru” (2008), de Manuel Barron, pesquisador do mesmo grupo.

2. Sugerir que leiam um breve balanço da Anistia Internacional sobre os dez anos (que se cumpriram ano passado) da conclusão dos trabalhos da CEH.
Uma amostra: “En total, la CEH documentó 669 masacres, 626 de las cuales eran atribuibles a las fuerzas del Estado. Hasta la fecha, menos de cinco de estos casos de graves violaciones de derechos humanos han dado lugar a condenas en los tribunales guatemaltecos, y únicamente para militares de baja graduación. Ningún militar de alta graduación ni autoridad ha comparecido nunca ante la justicia por ordenar, planificar o llevar a cabo las violaciones de derechos humanos generalizadas y sistemáticas de las que fueron responsables”.

3. Indicar um texto que escrevi quando trabalhava na Campanha Lainoamericana pelo Direito à Educação: “Mujer indígena guatemalteca narra caso de discriminación del derecho a la educación”.

4. Intimar: leiam Miguel Ángel Asturias, leiam! Tudo vale a pena: sua tradução do Popol Vuh, o Leyendas de Guatemala, Hombres de Maiz… Mas não dá pra morrer sem ler Week-end na Guatemala

Para finalizar, anoto uma noção interessante trazida por Corinne: a Guatemala viveria hoje, como ideologia de Estado, um “multiculturalismo neoliberal”, em que os avanços se dão, muito mais, no campo do reconhecimento de identidades que de transformações estruturais. E, mesmo assim, são reduzidos: em um univeso de cerca de 20 grupos linguísticos distintos, o espanhol segue reinando como único idioma oficial.

Violência contra mulheres na política

E para terminar mesmo, compartilho uma informação que recebemos de Corinne: a Asociación de Concejales de Bolivia (Acobol) vem desenvolvendo um observatório sobre violência contra mulheres na política, registrando ameaças e agressões. Em boa matéria da Alai (recomendo deveras), leio que elas estão em campanha em favor da aprovação, pelo Congresso, da Ley contra el Acoso y la Violencia Política en Razón de Género!

Uma das denúncias: “La encerraron en una habitación, la golpearon y hasta la amenazaron con un arma de fuego para que firmase su renuncia al cargo político que ostentaba, por el simple hecho de ser mujer”. (…)

Futebolísticas

23/06/2010

Futebol nem é minha praia mas, pô, isso tem que ser difundido: “‘O futebol é um jogo de pobre. A esquerda está impondo o ensino de futebol nas escolas americanas, porque a América está ficando bronzeada’, escreveu [Dan Gainor], associando a popularidade do futebol acima do rio Grande com a crescente migração dos mexicanos para os EUA”. Mais, aqui.

Nostalgia alheia

22/06/2010

Fixação por memórias: As minhas universidades, do Górki (nota: reler na edição da Cosac, porque o volume da Ediouro é quase intolerável para esta ex-revisora); a Infância do Coetzee e a do Graciliano. Aceitando sugestões: quem será o próximo?

Observação pertinente: Qual seria a mágica pra fazer os filmes da memória avançarem de um ponto em que sempre estacam? Por exemplo, o que acontece depois de quando eu derrubo a caixa de lápis de cor daquela menina mais velha e má do prezinho, o que vem depois de eu agachada catando os lápis espalhados entre as pernas que passam em pleno recreio? E a mágica para ampliar o recorte da imagem? O que há para além do chão de azulejos do quintal da casa da avó e de uma fatia de pulso branco e macio, quando a pulseirinha de ouro estoura e cai no chão? E para voltar àquela certeza que antecede o momento em que se instala a dúvida que detona tudo? Eram lápis de cor? Mas agora eu penso que antes estava certa de que eram canetinhas daquelas de corpo colorido e tampa branca. E agora já era: não eram lápis nem canetinhas, nem nunca mais serão; agora só podem ser dúvida. De modo que o que sobra de autêntico daquele dia é apenas humilhação.

Bebum

21/06/2010

Obrigada, cachaça “Alagoana Meladinha”, com você na garganta, a dor de garganta, a crueza do mundo e dos infames que o habitam, a procura sem sucesso — e sem segundas vias — por documentos urgentes, bem como a greve de ônibus (100% dos zebrinhas parados), não são nada. Enquanto você reinar ao lado do microondas está tudo bem, tudo ótimo. Seus 600 ml de alegria engarrafada.

Não ia falar, mas…

21/06/2010

Furar fila é muito feio. Mas estou certa de que quando eu e Lia (porra, comprometer os amigos é feio também) furamos aquela fila em Porto Alegre, no Fórum Social Mundial de 2005, para ver e ouvir Saramago e Galeano, fizemos bem. Aquele dia, ambos falaram sobre utopia…

Das indignidades

21/06/2010

“Companheiro, tudo precisa ter algum limite e tal limite é a nossa dignidade.”

A carta foi escrita há quase 20 dias, mas só hoje consegui ler a íntegra.

Concedido habeas corpus a cacique Babau e irmão

08/06/2010

Sem tempo pra escrever, vamos com a nota do CIMI.

O peso das palavras

07/06/2010

1.
Para os não índios, são Cinta Larga, pois usam uma faixa da entrecasca de tauari na altura da cintura. Para eles próprios, são Panderej, que significa “nós somos gente ou pessoas humanas”.

2.
Uma das áreas onde habitam os Cinta Larga chama-se Terra Indígena Roosevelt