Archive for abril \29\UTC 2010

Algumas linhas sobre um sujeito asqueroso

29/04/2010

Estamos em um conselho que reúne órgãos de governo e da assim chamada “sociedade civil”. A reunião ainda não começou. Ouço (não por indiscrição, mas por que ele grita) o “colega” do assento ao lado. Exaltadíssimo, o cara mostra pra dois outros conselheiros, na parede, desenhos imaginários de rios.

Derretendo de prazer: “Por aqui vai passar a cana, a soja, o etanol”. Então, os vitupérios: “Mas aí vem aqueles merdas filhos da puta das Ongs falando que vai atrapalhar a pesca, que vai passar em terra de índio. Igual Belo Monte. Vai alagar um pouco ali? Vai. Tem lá 16 mil índios. Um país de 190 milhões, e tem lá 16 mil índios. Dá dinheiro pros índios e pronto! Ah, vá pra puta que te pariu!” (Reproduzo literalmente sua fala; tomei o cuidado de anotar imediatamente, para reter o tom com que um conselheiro nacional se permite tratar de quem discorda de sua linha política.)

Vá VOCÊ pra puta que te pariu, eu teria respondido se tivesse coragem e se estivesse lá em outra condição. (Estar nesses espaços “privilegiados” apenas na condição de silenciar… isso me arrebenta.)

(Obs. O bacana é que a figura entra, no conselho, na cota dos representantes de “entidades e organizações dos movimentos sociais e dos trabalhadores”. Daí vocês já deduzem o que pensa o “segmento” dos “representantes empresariais”.)

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Aviso de retorno

21/04/2010

Ao cabo de uma semana na Terra Indígena Raposa Serra do Sol: revirada em meus pensamentos e sentires. Volto com uma certeza muito terminante e imbuída de certa coisa valiosa, guardada aqui no meu esterno até eu poder lhe dar o destino que a ela cabe.

O que estão fazendo nas escolas?!

08/04/2010

Hoje eu caminhava rumo ao trabalho, cantarolando “Apaga o fogo, mané”, mui contente com o sol (ia anunciar ontem, mas esperei virar o dia pra ter certeza: ontem começou a estação da seca!, voltam o pôr-do-sol de matar e os dias ventosos!).

Eis que, à altura do anexo do Palácio do Planalto, avisto uma horda de pequenos monstros vindo em minha direção: não!, uma excursão escolar! Olho para os dois lados, “a calçada é pequena demais para nós”… Mas, eles passam, comportadinhos até, dando as mãos pras “tias”. E então eu noto que estão divididos em dois grupos. À frente vem uma “tia”, seguida pelas meninas, penteadinhas, tic-tacs no cabelo; depois, outra “tia”, e só então os meninos. Eram alunas e alunos de uma escola da rede pública! Juro, juro que quase parei pra perguntar pras professoras: desde quando é uma diretriz da rede pública separar as crianças por sexo?!

(Trombar com excursões escolares é sempre um susto; a última foi em Montevideo, onde as crianças eram envolvidas por uma corda…)

Chiquilines, Plaza de la Independencia | Montevideo, 30 dez. 2008 | Por Daniela Alarcon

Feminismos indígenas?

06/04/2010

Andava muito inquieta. Até que, hoje, cheguei a um artigo de Aída Hernández Castillo Salgado chamado “Distintas maneras de ser mujer: ¿Ante la construcción de un nuevo feminismo indígena?”. Inquieta, continuo. Mas de outro modo, tendo como que confirmado em algumas ponderações de Aída o que me vinham aparecendo como “pistas”, “lampejos”.

Debruçando-se sobre o movimento de mulheres indígenas no México, Aída se detém, mais especificamente, nas experiências vivenciadas no marco do levante zapatista. A nortear o texto, uma tensão aguda, aquela que tem zunido no meu ouvido. É possível se apropriar dos feminismos hegemônicos — urbanos, brancos, ocidentais –, tensionando-os e engraviando-os com os modos de vida e as visões de mundo das mulheres indígenas? Se sim, como fazê-lo?

Fiquemos com um resumo de uma historieta de caráter exemplar, narrada por Aída.

Era 1994 quando um amplo espectro de mulheres — incluindo tanto indígenas como mestiças — deu início à construção da Convención Estatal de Mujeres Chiapanecas, como diz o nome, no estado de Chiapas. Em sua origem, o desejo e a disposição de estabelecer pontes. “Llama la atención, sin embargo, que las mujeres mestizas, a pesar de haber sido minoría, fueron quienes asumieron los puestos de liderazgo en una jerarquía interna no reconocida“, observa Aída (grifo meu).

No ano seguinte, convidadas pelo EZLN para uma mesa sobre a “Situación, derechos y cultura de la Mujer Indígena”, representantes mestiças da Convención não incluíram na relatoria do debate as descrições pormenorizadas realizadas pelas mulheres indígenas a respeito de seus problemas cotidianos. Constavam dos anais, apenas as demandas mais amplas, posto que somente estas apareciam, aos olhos das mulheres mestiças, como pertinentes segundo seus critérios (mais uma vez não enunciados) de validade política. Não percebiam o que observa Aída: “es a partir de estas experiencias cotidianas, que han sido borradas de las relatorías y memorias de encuentros, que las mujeres indígenas han construido sus identidades de género de una manera distinta a las de las feministas urbanas”.

A Convención, por óbvio, naufragou.

E mais: quando, em 1997, no Primer Congreso Nacional de Mujeres Indígenas, decidiu-se que as mestiças poderiam participar apenas como observadoras, estas acusaram as companheiras indígenas de “separatistas” e mesmo de “racistas”! Isso da boca de quem, muito provavelmente, defendia o direito à auto-organização das mulheres no interior de espaços mistos. Nessa ocasião, diz Aída, algumas dessas feministas mestiças “por primera vez fueron [significativamente] silenciadas por las mujeres indígenas”.

Se destaco o “não reconhecida”, o “não enunciados”, é por que comungo da preocupação de Aída em relação ao extremo cuidado que se deve ter nas tentativas de tecer essas pontes — de outra parte, muito necessárias. Algo como ter olhos para um verdadeiro ver – me entendem? –, que é um ver além. É por isso que Aída desenha um cenário de exercício da sensibilidade em relação à diferença, da paciência para o amadurecimento dos processos, do estar alerta para com as práticas autoritárias ou hegemonizantes não intencionais, do respeito aos tempos distintos e agendas nem sempre coincidentes. É mover-se com pés muito leves. Eu quero aprender a andar assim.

(Aqui, o texto de Aída numa formatação mais difícil de ler, mas que não exclui as notas de rodapé; já aqui acontece o contrário.)

Cidade perdida dos Pireneus…

05/04/2010

Na Cidade de Pedras | Pirenópolis, 03 abr. 2010 | Por Daniela Alarcon

E estes são os três doidos que toparam meu convite para conhecer a Cidade de Pedras ou, em versão mais grandiosa, Cidade perdida dos Pireneus. Mais detalhes, em breve.