Archive for março \31\UTC 2010

“Cidade Livre”

31/03/2010

Quando me contaram, há pouco, que o Núcleo Bandeirante era conhecido como “Cidade Livre”, pensei numa explicação mais poética que uma zona franca. Mas, vá lá, a história da cidade-satélite é bem interessante.

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496 páginas de Manoel!

30/03/2010

Lembro perfeitamente de como conheci Manoel de Barros.

Tinha 16 anos, passava uma temporada (férias? feriado?) em Gonçalves, sul de Minas. Vivia, com a cidade, um idílio adolescente — algo que se estendeu por uns bons dois ou três anos.

Pois bem. Suponho que havia terminado o(s) livro(s) que levara para a viagem, e estava de bobeira na sem-gracice do escritório-de-advocacia-e-contabilidade da família de uma amiga. Matando o tempo a tiros, quase. Lombadas e lombadas de livros e nenhum que me fizesse dizer suspirando “não é isso, mas… há de se sorver algo”. E eis que, sobre uma mesa, bato o olho n’O livro das ignorãças. Desconhecia Manoel por completo. Abri sem saber se encontraria auto-ajuda de limpar a bunda ou o quê. E veio um assombro confuso: “isto é… isto é absurdo! como nunca ouvi falar?!”. Desacreditei da minha capacidade de avaliação; se era tão bom, como nunca… nunca? Li e reli; pelos dois dias seguintes, até me reassegurar de que tinha algum discernimento literário. Esqueci de pedras mornas para deitar sob o sol, cachoeiras e o frio da serra cortando o rosto na noite. Ao mesmo tempo em que as formigas do quintal ganhavam sentidos inauditos.

(Me ficou, para sempre, a dúvida: o que aquele livro foi fazer lá, no meio de gente que lia pouco ou nada? Pelas mãos de quem? Um livro de tanta rareza… Eu criei esse livro?)

E então recebo a notícia de que me trazem, nesta quinta, as obras completas do Manoel de presente. (Suspiro.) Minha mãe continua me estragando à distância.

Dona Silvia

30/03/2010

Coisa mais fácil é encontrar imagens de pombas em Goiás Velho. Algo como: a cada três casas, uma traz o espírito santo sobre a soleira. Os adesivos da festa do divino estampam, sobre o nome do festeiro da vez, mais pombas. As reais, também se vê sem esforço – sobre a casa de Cora Coralina, há várias.

Alfenins | Goiás, 28 fev. 2010 | Por Daniela Alarcon

Agora, para achar aquelas pombas de nome árabe, brancura doce e peninhas modeladas, só numa velha casa, num canto da praça do chafariz de cauda. Não fosse pelo labor caprichoso que se opera naquela cozinha, estaria perdida, em Goiás, a arte dos alfenins.

Tão logo aparecemos à porta, nos convidam a entrar. Esperamos, entre os bibelôs. Dona Silvia vem da cozinha com a bandeja-pombal às mãos; emerge de um tempo em que várias doceiras detinham a mesma arte. As pontas dos dedos esmaltados guardam queimaduras de décadas – pois a massa deve ganhar forma ainda quente – e uma infinita paciência.

Dona Silvia e alfenins | Goiás, 28 fev. 2010 | Por Daniela Alarcon

No lago artificial

29/03/2010

Ontem acordei detestando Brasília e fechei o dia nadando na Ermida (meio que vestida, pois foi de improviso). Água cálida, a cidade do outro lado do lago. Lua gorda e baixa, ainda com céu claro; pôr-do-sol bordô; e então as luzes tremelicando laranjas lá longe.

Entre raquetes

27/03/2010

Que eu gosto de Brasília — em que pese toda a merda –, já é um fato.

Para justificar, poderia citar, hum, as árvores frondosas que têm vagens no topo. O fora-de-lugar; seu verde gritante de ervilhas contra o sóbrio das folhas as mais tradicionais. (Quando eu era criança, todo jogo de lápis de cor, por mais simples que fosse, tinha ao menos dois verdes: o escuro, pras folhas das árvores, e o claro, pras coisas do chão. Com os últimos, desenhava a grama e, se buscasse algo, digamos, mais específico, também me serviria para vagens. Aqui, tudo misturado; dá graça, ver.)

Também as colunas de chuva. Que, desde que me mudei, deixaram a categoria de visagem estupenda rara para a de visagem estupenda cotidiana.

Mas que o único cinema dito “de arte” em funcionamento na cidade seja dentro do “privilegiado espaço” de uma academia de tênis (sim, academia de tênis) tem todo um simbolismo ao qual posso recorrer quando precisar explicar por que nunca vou me entregar a esta cidade.

“Fundada em 1972 pelo médico José Farani, a Academia de Tênis é um clube com 230 apartamentos, 22 quadras de tênis, uma casa de espetáculos, dez salas de cinema, três restaurantes, sauna e academia de ginástica. Por sua localização e estrutura privilegiadas, a cinco minutos da Esplanada dos Ministérios, a Academia de Tênis é tradicionalmente residência de ministros e autoridades do segundo escalão do governo federal. A proximidade com a sede do poder não impede que a Academia ofereça tranqüilidade, conforto e lazer aos seus hóspedes e visitantes”, diz o site do dito complexo.

A cidade poderia ter ao menos mais um cinema a passar filmes alternativos, independentes, o que seja. Em tudo oposto ao outro: é público, acessível de ônibus ou metrô, e vendia ingresso a preços populares. Chama-se Cine Brasília. Ganha as páginas dos jornais uma vez ao ano, quando ocorre o Festival de Brasília do Cinema Brasileiro. Fora dos holofotes, durante o resto dos dias, é vítima de um processo que acumula para o discurso de uma “necessária privatização”. Ainda estava aberto quando aqui cheguei, e foi uma das zonas de afeto que elegi na cidade. (Escrevi sobre ele, em um papel solto ora perdido, um texto de nome “Um cinema pra chamar de seu”.) Terminada a última edição do festival, foi fechado. E segue assim.

* Não sou tola para desvincular cinema e mercado cultural, para não enxergar o esnobismo e a masturbação intelectual do circuito de “arte”. E tampouco desconheço o triste destino dos cinemas do centro de São Paulo e de outras capitais. Mas, sabe, eu não quero cruzar com debutantes ou tenistas quando vou ao cinema.

Cine Brasília, de letreiro vazio | 17 mar. 2010 | Por Rita Andrade

Isto não é um blogue de receitas…

27/03/2010

…, como vários por aí, alguns dos quais, excelentes. Mas hoje eu inventei um troço tão bacana (simplinho, resultado apenas de uma boa combinação), que vou abrir exceção. Mesmo por que a invenção se deu ao cabo de meses sem forno (o maldito veio quebrado — efeito colateral da compra de todos os eletrodomésticos da casa ao que seria o preço de apenas, sei lá, uma máquina de lavar séria).

Torta de maçã e água de rosas

Misturar com as mãos 2 xícaras de farinha de trigo refinada, 1 xícara de farinha de trigo integral e 200 g. de manteiga sem sal. Acrescentar uma xícara de açúcar, 2 gemas, algumas pitadas de noz moscada e uma colher de fermento. Amassar bem. Distribuir em uma forma untada com manteiga e farinha.
Levar ao fogo algumas maçãs em pedaços, água e açúcar. Mexer e acrescentar água de rosas. Tirar do fogo quando virar um creme, que deve ser espalhado sobre a massa. Levar ao forno.

(!)

23/03/2010

Só hoje assisti a Minha Adorável Lavanderia.

Injeção de serotonina na minha terça à noite

23/03/2010

Una copa más,
tal vez un poooco amaaaarga,
por nuestro graaaaaaaan cariño,
que nunca volverá.
Una copa mááááááááááás.

De João e Oscar (Lúcio, como promessa de texto)

23/03/2010

Seis meses atrás, recém-chegada em Brasília, escorreguei uma tarde para o interior do Espaço Oscar Niemeyer, atrás do Pavilhão Nacional. Pondo ordem na casa, encontro o que rabisquei então, notas curtas da minha conversa com João, o vigia. Faltou papel, de modo que as anotações saíram nas costas do folder do museu… eu fiz frases do João disputarem com as d’O Arquiteto. Ali está dito, pelo segundo: “A arquitetura não é tão importante para mim. O principal é a vida, este mundo que um dia vamos modificar”. Aceitemos, provisoriamente, que há sinceridade no dizer de Niemeyer; topando seu convite, esquivo-me das maquetes, e vamos ao que disse João.

Porque dessa vez, creiam, eu não puxei assunto. Éramos dois no museu inteiro e, mesmo assim, eu encarava em silêncio bem comportado um conjunto de nus, o traço contra a parede vermelha. “Tá dando uma olhada nesses desenhos feios?” Esse foi seu boa-tarde. Se ele não gostava? “Gosto não, acho esquisito.” O vigia se fez, de um salto, tão senhor do museuzinho de um só ambiente, que eu juro que esqueci, por uma fração de tempo, da presença do onipresente. Foi João quem o reintroduziu na sala, espectral. “Ele veio duas vezes desde que eu tô aqui. Só que não tá quase andando.”

Mencionadas as dificuldades de locomoção do outro, está João autorizado a circular pela sala; me aponta nas maquetes o que será o quê depois de tudo pronto — afinal, sempre há alguma monumentalidade pendente em Brasília. Um porvir todo lastreado na profecia, que me deixa de cabelo em pé. (Mas isso é assunto para outra hora.) Eu divago agora, e divaguei então; e, quando voltei, dei de cara com um João que havia serenado o desprezo do início da conversa. Rendido, mas só na batalha da boniteza estética. De modo algum havendo capitulado na guerra arquitetura monumental x humanidade ao rés do chão. E, mais ainda, adianto que sendo ele já então, para mim, o vitorioso. “Eu acho bonito…”, concede. “Só que quem faz mesmo não fica famoso e, depois, para entrar num prédio desses, até sofre. Se eu quiser entrar no Congresso…”

(Estou a cutucar vespeiro… mas isso é só um começo de conversa.)

Rumo a… Palmas?

22/03/2010

Então eu descubro que vou a Palmas, a trabalho. Não sabendo nada sobre (exceto o óbvio: que é cidade planejada, terra de quentura e especulação imobilária ambas igualmente escandalosas), pesquiso. O lugar tem uma ponte chamada Fernando Henrique Cardoso, uma hidrelétrica chamada Luís Eduardo Magalhães e uma praia de rio artificial com redes de proteção contra os constantes ataques de piranhas. Acho deselegante ter preconceito contra cidades, mas só consigo pensar que estão me mandando pra uma filial do inferno.

Espero, mesmo, morder a língua quando estiver na Palmas real. Eu tinha tantas expectativas em relação ao rio Tocantins!