Archive for janeiro \29\UTC 2010

Porque, para nós, só resta a luta

29/01/2010

[Ando nessas de perder o almoço para jornalistar. Claro que, se remunerado, não seria um ato de prazer (ou ao menos não completamente). Faz todo o sentido, para mim, mas quem vê de fora deve achar no mínimo curioso que eu saia correndo pela Esplanada, voluntariosa, com câmera na direita, bloquinho na esquerda e caneta entre os dentes. Possuída.]

Na última terça-feira, 26, os índios que seguem acampados diante do Ministério da Justiça contra decreto de reestruturação da Funai fecharam por breves momentos (em torno das 13h) um dos lados da Esplanada (*). É claro que sombreados pelos homens da Força Nacional, a zelar pela “ordem” e o “patrimônio”. Dançaram, cantaram e estenderam faixas; logo terminou o ato, sob a chuva fria e o silêncio das “autoridades”.

“Desde 4 de janeiro estamos tentando ser escutados. Hoje estamos fazendo um ato político e o presidente tem que dar uma resposta para a comunidade indígena, que está aqui sendo desrespeitada”, afirmou Gilberto Jorge Cordeiro Gomes, da Confederação dos Trabalhadores no Serviço Público Federal (Condsef). Quando lhe perguntei sobre o impacto do decreto sobre os servidores da Funai, e se estavam esboçando alguma resposta, observou que muitos deles estão de férias e que a mobilização deve crescer. “Está todo mundo revoltado, porque atinge os trabalhadores também, mas o mais importante é que atinge as comunidades.”

Indígenas e indigenistas contrários ao decreto defendem que a reestruturação da Funai, nos moldes que determina o texto, enfraquece o órgão e atende ao interesse de um conjunto de Ongs, entre as quais o Instituto Socioambiental (ISA). Para Kretã, indígena Kaingang que veio do sul do país para protestar, o presidente da Funai, Márcio Meira, não é mais que um “chefe de Ongs”. “Meira fez com que as Ongs assumissem a Funai. As Ongs é que fizeram a reestruturação, para serem beneficiadas”, diz.

Além disso, diz ele, a reestruturação torna os índios ainda mais vulneráveis às ameaças de latifundiários e garimpeiros. “Hoje os agricultores passam estourando foguete e dando tiro por cima dos nossos acampamentos, falando que nós somos invasores”, conta. “Vocês que estão aqui é que são invasores, descendentes daqueles portugueses que vieram aqui não para nos beneficiar, mas para nos roubar e estuprar nossas mulheres.”

Kretã critica ainda o silêncio da imprensa em relação aos ataques sofridos pelos índios. “Toda semana tá morrendo um líder importante nas nossas aldeias”, diz. “Eu sou filho de índios que morreram lutando pela terra. (…) Peço a vocês: entendam nossa luta, nossa revolta. E pode ter certeza: morre um indígena e vem outro e vem outro. Porque, para nós, só resta a luta.”

(*) Escrevo com atraso. Pensei em deixar de fazê-lo, mas mudei de ideia devido à surreal ausência de cobertura do ato (a Agência Brasil, por exemplo, que estava lá, optou por publicar apenas três foto-legendas, sequer uma nota…). Não que isto aqui seja uma cobertura de fato; não há pretensões nesse sentido. É só uma tentativa de encontrar ouvidos para o que foi berrado naquela Esplanada — como quase sempre — fantasmática.

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A noite em laranja

29/01/2010

Escadaria da Sé. São Paulo, 2005. Por Leandro Oliveira.

Esta e outras poucas fotos estão aqui. Mas Leandro prometeu-me organizar outras tantas, logo menos.

Recomendo…

28/01/2010

… puxar da prateleira um livro que não tem nada a ver com o que se está lendo no momento, com o que se está pesquisando, estudando, nem ao menos com o que costumam ser os seus interesses nas leituras casuais.

No ar rarefeito, de Jon Krakauer. Devorado.

Tá na hora de os sprays trabalharem de novo

28/01/2010

Hoje pela manhã passei por dois pontos de ônibus (ou “paradas”, como se diz aqui) sendo caiados, para ocultar o “Fora Arruda”.

Quando morar em Brasília é legal

27/01/2010

Uma viagem de 10 minutos de ônibus, saindo do trabalho, e mais 10 a 15 de caminhada me deixaram diante de uma cuia cheia de tacacá — prato paraense preparado com tucupi (caldo extraído da raiz da mandioca brava), muitas folhas de jambu (que provocam uma leve e prazerosa dormência na língua) e camarão seco — e de um prato de pirarucu.

(Em Belém, duas mulheres — uma de Rondônia e outra do Amazonas — tentaram com a maior naturalidade me passar a receita do tucupi. Quando me familiarizava com termos como tipiti, já tinha esquecido os tempos de preparo; quando decorava os tempos, já não sabia as quantidades. Um fiasco.)

Praia de candango

25/01/2010

Vários dos brasilienses que conheci torcem o nariz à mais ligeira menção ao Parque Nacional de Brasília, conhecido como “Água Mineral”. Em uma cidade quente e sem praia, salpicada em seu entorno por cachoeiras inacessíveis para quem não tem veículo próprio, natural que o parque com duas piscinas de águas correntes se tornasse uma atração deveras popular. E, convenhamos, nada mais desagradável que pobre se divertindo (modo ironia ligado).

Descobri, ao dar com o nariz no portão do parque (depois de caminhar 3 a 4 km, desde a minha casa), que durante todo o período de férias escolares, ele costuma fechar suas portas por volta das 10h da manhã, quando atinge a lotação máxima. Ontem, havia três mil pessoas na área de visitação permitida!

Água Mineral segue pendente na minha “lista”. Mas bacana caminhar por essa parte de Brasília. É só se afastar uns minutos do Plano Piloto para topar com o estranho encaixe da cidade planejada no cerrado. Já às portas do parque, avistamos duas corujas (comuns por aqui, mas estas a fazer uns gestos com a cabeça inéditos para mim) e uma avezinha de rapina — bem como um bambuzal, cujo oco, guarnecido com um colchonete tosco, certamente serve de abrigo para alguém… (nota mental: escrever, outra hora, sobre moradores de rua em Brasília).

Falar em desigualdades, a caminhada da ponta da Asa Norte ao Água Mineral faz-se margeando o famigerado Setor Noroeste (sobre o qual escrevi algo aqui). Devastação a olhos vistos, terra vermelha revolvida por tratores e muitos anúncios publicitários do GDF sobre o “primeiro bairro ecológico do Brasil”. Numa das placas, pequena ironia. Ela, que trazia os dizeres “mais qualidade de vida para todos”, recebeu uma pichação “Fora Arruda”; sobre o picho “subversivo”, os construtores do Noroeste (GDF, Novacap ou Terracap) tascaram uma camada de tinta branca, tapando exatamente o “para todos”…

Tortos

25/01/2010

“Nem tudo que é torto é errado, vide as pernas do Garrincha e as árvores do cerrado.”

(Inscrição aos pés de uma árvore lindamente torta, próxima à cachoeira do Abade, na fazenda Cabaçais, Pirenópolis)

Índios protestam em Brasília

20/01/2010

Após desocuparem a sede da Funai, indígenas acampam diante do Ministério da Justiça, em protesto contra decreto de reestruturação do órgão, assinado por Lula no último 28/12, sem que os houvesse consultado (a consulta é determinada pela convenção 169 da OIT, ratificada pelo Brasil).

Índio tapuia, de aldeia próxima a Rubiataba (GO), em protesto. Brasília, 20 jan. 2010. Por Daniela Alarcon.

Em torno das lonas pretas, um que outro cartaz: “Parasitas dos povos indígenas, nossos recursos naturais não lhes pertencem” e “Fora da FUNAI Instituto Socioambiental (ISA) e Centro de Trabalho Indigenista (CTI)!”. Sob o calor de estorricar, indígenas de diferentes etnias e estados esperam resposta a suas demandas: uma audiência com Lula e Tarso Genro, e a demissão do presidente da Funai, Márcio Meira.

Enquanto isso, o ministro-pistoleiro trabalha, célere, pela suspensão de demarcações de terras indígenas.

Mais fotografias, aqui.

Diálogos fora de lugar

19/01/2010

Academia (de ginástica, embora a outra também, às vezes) é, para mim, lugar de futilidade, culto hedonista e uma série de outros clichês repisados.

O instrutor (com suas roupas esportivas e “Jesus” tatuado no braço com a mesma fonte da coca-cola), enquanto me explica uma série de exercícios: “Porque, sabe, a mulher é mais cobrada em relação à aparência. Minha irmã, como trabalho de conclusão em nutrição, estudou o impacto, sobre as mulheres, desse padrão de beleza imposto pela mídia, claramente universalizante e não condizente com a variedade dos biotipos”.

Eu: “…”.

***
O comentário de meu amigo Pedro me chamou a atenção para uma certa ambiguidade em meu texto. Deveria ter escrito: “Academia de ginástica era, para mim, lugar de futilidade…”. O meu silêncio de espanto (“…”) guardou ampla concordância com o moço e a irmã do moço!

Nós dos Jaymes pretos cozinham melhor ainda

18/01/2010

“De família tradicional, qualquer Jayme é cozinheiro bom. E nós dos Jaymes pretos cozinham melhor ainda que esses dos brancos.”

O restaurante Pensão do Padre Rosa, em Pirenópolis, traz na fachada um lapidar “Fartura”, entalhado em madeira. À entrada, sobre a parede rosa claro, jornais emoldurados com manchetes chamativas enaltecendo “a mesa mais farta do Centro-Oeste”, “a pensão mais famosa do Brasil”. Os textos cobrem décadas, em narrativas truncadas. Sabe-se que o restaurante — outrora também pensão — foi fundado em 1952 por João Jayme Joanito, conhecido como Juanito Jayme. Um de seus 23 filhos, Ranulfo (que abre este texto explicando a distinção entre os Jaymes pretos e brancos), hoje toca o restaurante e conta aqui (*), em detalhes deliciosamente embaralhados, a história de Juanito.

Nascido em 1899, filho de coronel com escrava, Juanito viveu os enredos do coronelismo goiano, envolveu-se em casos de morte, vendeta e milagre. É, aliás, a um milagreiro meio torto, padre jogador de baralho, que o restaurante deve o nome. Ranulfo lembra que o pai serviu Juscelino; faltou pouco para, por capricho, deixar de atender a Rachel de Queiroz (que dedicou um artigo ao restaurante, n’O Cruzeiro, em 1953); a presença de Collor, vestido de shorts e “você sabe com quem está falando?”, definitivamente vetou.

Arroz com pequi, tutu, feijão tropeiro, couve, paçoca de pilão, javali assado, carne ao molho de café, torresmo. Esse foi meu cardápio, nada frugal, no último sábado. E tive que deixar de lado muitos outros pratos, cheirosos de lenha… Custou-me muita firmeza de propósitos limitar-me aos doces de mamão verde, jabuticaba (suas cascas negras convertidas em finas peles translúcidas e esverdeadas), caju e leite (na quantidade de açúcar exata). E, no copinho de café, um suco de limão cremoso e doce. “O forte nosso era a variedade de doces que não existe no mundo. Em lugar nenhum no mundo”, diz Ranulfo.

(*) Recomendo muito, muito que leiam; é coisa bonita demais.