Archive for novembro \30\UTC 2009

Lagoa do Mundaú

30/11/2009

Fim de tarde em Maceió, 30 nov. 2009.

E aqui, mais fotos de Maceió.

Manxi

28/11/2009

Cleivan Manxiwetoro. Goiânia, 26 nov. 2009.

Crítica-curta 2: Resta por fazer

23/11/2009

Ainda está por se fazer um filme sobre Manoel Fiel Filho. Que tenha, no mínimo, a honestidade de tratá-lo como mais que pretexto. [Eu escrevi longa carta a um amigo — pobre! — esmiuçando o filme. Não cabe reproduzi-la e tampouco tenho ganas de adaptá-la para caber aqui. Mas não importa: escrevo só para registrar uma ausência.]

Por outro lado, um trecho de depoimento compensou não ter saído no meio de Perdão, Mister Fiel. Lá pelas tantas, FHC diz, candidamente, que assinou o decreto de sigilo eterno dos arquivos da ditadura sem ler o que estava escrito. Não me lembro letra por letra, mas não foi algo muito diferente disto: “Sabe como é, o presidente não lê tudo que assina. Confiei no que estava assinando e tinham posto esse papel no meio. Quando vi, falei ‘Nossa, o que eu fiz?!’. Mas o Lula poderia ter alterado o decreto se quisesse”. Hohoho.

Crítica-curta 1: Da pertinência

23/11/2009

Para além da simpatia pessoal — conheço Marcelo, o filme se passa na minha São Paulo… –, Bailão merece todos os elogios que faço e mais. Dá para falar da sensibilidade no tratamento, das qualidades estéticas várias, mas fico em uma coisa só: do olhar para sair-se com um tema tão politicamente relevante, tão pouco óbvio, em suma, tão pertinente. Bailão fala (simplificando, sempre simplificando) de homossexuais de meia idade. Dois destaques:

1. Quando um dos sujeitos diz que seu desejo só se manifesta em situações tidas como marginais — a noite, o sujo, o perigoso –, pois, sob a repressão, foi “treinado” para se restringir a tais espaços. Da irreversibilidade do que cunhou a repressão. Ele é consciente desse molde, mas se diz incapaz de dele sair.

2. Quando outro enumera (primeiros nomes, que nos escapam, mas têm o poder da evocação) os amigos que perdeu para a Aids, na barra dos anos oitenta e noventa, e se posiciona melancolicamente diante de conquistas como a Parada Gay: muitos do que acumularam para a luta pela liberdade de orientação sexual não podem desfrutar dos avanços ali materializados. Lembro que este ano saí na rua só para ver a Parada passar (não tinha me programado para ir, como em outros anos, mas quis vê-la, de última hora): eu só sorria; deixando de lado tudo que se pode dizer, as contradições etc., eu gozava com o vê-la passar. Ano que vem, se lá estiver, vou sorrir de novo esse sorriso triunfante de saber que os estamos afrontando, aos intolerantes, mas sei de antemão que vou evocar a melancolia, e especialmente a força, do conjunto desses nomes que desconheço.

De volta ao cineminha: Festival de Brasília

23/11/2009

Terminou ontem (para mim) o Festival de Brasília do Cinema Brasileiro. Hoje, deixei Brasília para trás — pela primeira vez, atacada por vontade de ficar. Registro telegráfico do que vi:

18/11
Homem-Bomba, Tarcisio Lara Puiati (fic, curta)
Amigos Bizarros do Ricardinho, Augusto Canani (fic, curta)
Filhos de João, Admirável Mundo Novo Baiano, Henrique Dantas (doc, longa)

19/11
Bailão, Marcelo Caetano (doc, curta)
Água Viva, Raul Maciel (fic, curta)
Perdão, Mister Fiel, Jorge Oliveira (doc, longa)

20/11
Dias de Greve, Adirley Queirós (fic, curta)
Ave Maria ou Mãe dos Sertanejos, Camilo Cavalcante (doc, curta)
Quebradeiras, Evaldo Mocarzel (doc, longa)

22/11
Carreto, Marilia Hughes e Claudio Marques (fic, curta)
A Noite por Testemunha, Bruno Torres (fic, curta)
É Proibido Fumar, Anna Muylaert (fic, longa)

Com um saldo de três longas bacanas e um lamentável, quatro curtas bons e quatro ruins. Digamos que saí no lucro (algo como “posso voltar ano que vem”). Poderia comentar um a um. Mas não.

Fruteiras

17/11/2009

Ansiando pelas manguinhas, cuja máquina de sabor e sumo opera dia e noite, pondo-as mais carnudas, ao avanço de passos da minha casa. São como pendentes de brincos. Se gostasse, teria também as jacas; mas está muito bem, meus olhos gostam. Mangas e jacas, interregnos urbanos.

O mergulho valeu cada palmo

09/11/2009

Copacabana. Rio de Janeiro, 7 nov. 2009.

Mais fotos, desta e de outra ida, aqui. Mas são pouquinhas, elas, só um começo de álbum a ser completado quando eu, finalmente, morar no Rio!

Aracoiaba: expulsos pelo açude

01/11/2009

Os açudes salpicados nesta parte do Ceará afundaram mangueiras – copas à vista como testemunho –, deixaram túmulos de ancestrais submersos. Mais: tornaram famílias sem-terra. Com mobilização, algumas foram assentadas; já outras estão em terras provisórias, de outrem, por vezes sem acesso à vazante do açude – sem acesso a muita coisa, em verdade.

Nos deslocamos de Fortaleza a Aracoiaba, para conhecer Poços, uma comunidade de atingidos por barragens. A região é de serras (Maciço do Baturité – mais um destino de viagem que traço na cabeça), caatinga em que abundam palmeiras. Os municípios que cruzamos se abrem para futuras incursões: Pacatuba, Redenção, Guaiúba. Passamos diante de uma fazenda, cuja placa quase me arranca do carro: Museu Senzala Negro Liberto. Leio que Redenção foi a primeira cidade do Brasil a libertar todos os escravos, em 1883.

Flutuam pela janela: açude, casarão com as arestas enegrecidas, trem cargueiro, joão-de-barro, “Vende-se fardamento escolar”, cerquinhas retorcidas e a simpatia dos jegues. Pássaros sobrevoam o brejo (deleite: há uma árvore coberta de avezinhas), onde flores lilases brotam em tufos. Uma roça muito verde no meio da secura, com homem inclinado sobre a enxada, tem aparência de viço deslocado.

Aracoiaba (do tupi, “onde os pássaros cantam”) é responsável pela terceira produção de caju do Ceará, sou informada no caminho; no mais, agricultura de subsistência. O sujeito com quem converso – um tanto histriônico e que se apresenta como Dedé do Mundo – tem de cor o número de habitantes (29.832) dos nove distritos que a compõem; o IBGE subtrai a esse número uns quatro mil. Com orgulho, aponta as atrações da cidade: a antiga ponte ferroviária e a Pedra Aguda (formação, de fato, estonteante). (Procurando uma foto da pedra, descubro que existe um site dedicado especificamente a escaladas no Ceará – a internet é um assombro diário.)

À beira da estrada, as fileiras de casa se intercalam com pomares de caju: homens, mulheres e crianças sentados sob a sombra das árvores descastanhando os frutos. O quilo da castanha, vendido ao atravessador, lhes renderá em média pífios 90 centavos; uma caixa do fruto (que comporta cerca de 15 quilos) sai por 2 reais. Há, no município, duas fábricas de beneficiamento de caju, me dizem. A curtos intervalos de tempo, vejo caminhões com a boleia coalhada de caixas de plástico (algumas com a inscrição “Maguary”), com ou sem cajus, a depender da direção.

Ao chegarmos em Poços, nos recebem na igrejinha, por onde circula uma bacia de cajus, suculentos e doces, trazidos do pé. Crescem, os cajueiros, em terra emprestada: com a construção do açude de Aracoiaba, finalizado em 2002, os moradores de Poços perderam a sua. Hoje, estão organizados na Associação Comunitária de Poços, integrante do Movimento dos Atingidos por Barragens, o MAB.

Dona Joana convida-me, entre sorrisos, a entrar em casa. Cruzamos a cozinha e lembro de uma conclusão que trago da Bahia: quintal é sempre uma descoberta. Não se adivinha da frente das casas o que guardam os quintais. Pode ser gato sonolento, instrumentos de trabalho, canteiros, crianças, tanque, forno de doce, casa de farinha – enfim, não é uma combinação de elementos que se possa delimitar, é antes uma atmosfera à qual consigo apenas aludir. [“Como ela é alva!”, comentam entre si quando me despeço.]

Pois é nesse quintal que encontro, a dividir a mesma parede, cartazes eleitorais, retrato antigo de um padre e o crucifixo dourado logo em cima do mote do MAB: “Água e energia não são mercadorias! Água e energia são pra soberania!”.