Archive for dezembro \24\UTC 2009

De Brasília a São Paulo

24/12/2009

Bairro sustentável: não tem índio e nem cerrado

22/12/2009

Salvo engano, pouco ou nada se debate em São Paulo sobre o Noroeste, projeto de bairro “sustentável” que se quer construir no Plano Piloto. O custo da “sustentabilidade”: acabar com a última reserva de cerrado do Plano e expulsar uma comunidade indígena (do Bananal), erguendo o metro quadrado mais caro da cidade.

A proposta não surgiu ontem, mas ganhou fôlego no atual e corrupto governo distrital, já que o vice, Paulo Octávio, não é menos que um dos maiores empreendedores imobiliários de Brasília.

Sem tempo para discorrer sobre o tema como se deveria…

Mês passado o Ministério Público Federal ajuizou ação civil pública contra a Funai, o Instituto do Meio Ambiente e dos Recursos Hídricos do Distrito Federal (Ibram) e a Companhia Imobiliária de Brasília (Terracap), para garantir a permanência da comunidade indígena no local, ao menos até a realização de estudos sobre a “tradicionalidade da ocupação”. Aqui, a ação do MPF.

E hoje recebi de um amigo, jornalista pela UnB, seu trabalho de conclusão de curso: A construção do bairro Setor Noroeste feita pelo Correio Braziliense, uma análise do discurso do jornal. Para quem mais interessar possa, ei-lo aqui.

Papeizinhos de bolso

21/12/2009

Perder a mania de anotar em papéis soltos, que brotam dos bolsos e bolsas quando não espero, sei que não vou. Mas podia ao menos datá-los. Hoje, ressurge: “A árvore mais próxima ao Senado hoje entardeceu dando cachos de periquitos”.  Esse hoje no interior das aspas… foi-se.

Eugênia

21/12/2009

Logo que comi minha primeira cagaita, rastreei a memória gustativa e topei de pronto com a jabuticaba. Não é que elas se pareçam feito frutas gêmeas, mas há um sabor de fundo — algo a ver com a persistência da fruta na boca — que as aparenta. Jabuticaba é a eterna preferida. Do cerrado, vêm duas outras de que gosto tanto, ambas provadas pela primeira vez na Bahia: buriti e mangaba. À cagaita, me entreguei de modo atirado.

Os frutos de amarelo aveludado se esparramavam diante do quarto de hotel (isso foi em Pirenópolis) e havia que catá-los do chão. A luta era com o sol: tão ligeira quanto a apresentação da fruta, viera a advertência: cagaitas quentes, ou em excesso, me levariam direto para o vaso.

Agora, passados meses, me debruço um instante sobre o vocábulo “cagaita” — a franqueza, que me escapou à época. Quando dou com seu nome científico, só cresce minha simpatia: Eugenia dysenterica DC.

Se a Eugênia (vou lhe emprestar um circunflexo para não virar eugenia) te envolver até a gula, em suas próprias folhas, diz-se, reside o antídoto. Senão, deixe-se levar: afirma o biólogo, no mesmo artigo (o que ando lendo, céus), que comê-la em excesso também pode causar embriaguez…

Abdias Nascimento

21/12/2009

Hoje vi Abdias Nascimento de pertinho. Uma alegria-fetichista ocupou meu dia.

Abdias Nascimento e Santa Rosa estudam cenografias para o Teatro Experimental do Negro. Rio de Janeiro, c. 1949. Por José Medeiros. Do site de Abdias: http://www.abdias.com.br/

Aos 95, Abdias recebeu o Prêmio Direitos Humanos deste ano, conferido pela Secretaria Especial de Direitos Humanos. Ganharam também, entre outros: Augusto Boal (em memória) e Inês Etienne Romeu. Aos três, bati palmas com força.

Salsipuedes

20/12/2009

Mais uma para a coleção de perversidades.
Já conhecia o episódio da emboscada e consequente massacre dos charruas, comandado pelo “prócer” uruguaio Fructuoso Rivera (contou-nos Rodrigo ao pé do fogo, junto à Laguna de los Cuervos). Só não sabia, até agora, que o feito se deu às margens de um arroio que tomou o nome Salsipuedes: saia se puder.

Transmutação

17/12/2009

O que poderia ser uma festa-de-trabalho (ou seja…) teve pomar (tímidas manguinhas verdes ombreadas a enormes, enormes mangas rosas); seis mulheres lindas — zabumba, triângulo, caxixi, acordeom… — sacadas do meu cotidiano e convertidas em umas forrozeiras muito das dignas; uma ciranda candidamente desastrada; e, especialmente, a luz do planalto, em suas mutações, enchendo toda a tarde.

**
Ontem chegou-me à mesa, em meio a um fluxo de correspondências burocráticas que já se arrasta há semanas, envelope tendo Natércia por remetente. Envelope mais gordo que os das outras, o suficiente para me pôr dedos cruzados a torcer para que não fosse apenas um recibo de passagem. E vem: um e-mail xerocado, com mensagem no verso: “Isto é para Daniela. Um pouco da historia da minha família. Beijo. Natercia”. Pois que não consegui ler até agora. Um misto de curiosidade com querer saborear aos poucos.

Soledad

15/12/2009

Sem tempo para crítica literária, mas com urgência de falar — mais — sobre a leitura de domingo.

A imagem de Soledad pregada na mente. Brutal, indo e vindo: seu corpo nu, dentro dum barril, sangue seco e feto aos seus pés (pois Soledad estava grávida, talvez de cinco meses, de seu delator, aquele que hoje se conhece como Cabo Anselmo). O horror. Assassinada aos 28 anos pela ditadura militar.

Me furto a escrever sobre ela: há uns quantos perfis biográficos internet afora (ainda que muito menos do que mereceria, por certo); este é um dos mais extensos que encontrei.

Soledad no Recife, de Urariano Mota, deu novo combustível ao estado de indignação permanente contra a barbárie — sempre necessário atiçar este ódio que é ultimato ético e amor essencial pelo humano –, estado em que quero viver.

Soledad Barrett Viedma, presente!

Soledad Barrett Viedma; imagem extraída do blog da Boitempo.

Quero escrever assim quando crescer

14/12/2009

Leitura: “A venda de esposas”, de E.P. Thompson, onde ele propõe a venda de mulheres na Grã-Bretanha dos séculos 18 e 19 como, em alguns casos, prática de divórcio popular. Alegre que uma pesquisa de anos, com rigor metodológico, profusão de fontes e esforço analítico, seja vertida em um texto que se pode ler — em “capítulos”, fazer o quê — no glorioso zebrinha, o circular rajado de branco e vermelho que corre a Asa Norte e a Esplanada, comigo, todos os dias.

In: Costumes em comum: Estudos sobre a cultura popular e tradicional.

Refeição-genocídio

13/12/2009

Trouxe de Belém — muito mais pela curiosidade que por outra coisa — um saquinho de aviú, minúsculo camarão de água doce. Deram origem a um risoto e a bolinhos. Mesmo exercitando a capacidade de abstração (o velho não lembrar da vaca ao comer o bife), confesso que não foram refeições totalmente ausentes de culpa.

PS. Que não me leiam minha irmã e cunhada, vegetarianas.


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